Brasília – Afastado de suas funções desde abril, o agente da Polícia Federal Philipe Roters Coutinho tornou-se alvo simultâneo de investigações da própria corporação, da Justiça e da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que Coutinho movimentou R$ 2,8 milhões entre maio de 2024 e maio de 2025, quantia considerada incompatível com o salário de R$ 13 mil que recebe como servidor público.
Escolta no aeroporto
O policial é investigado por ter usado um veículo oficial da PF para acompanhar o empresário Danilo Trento — citado em outros inquéritos no Congresso — e o então procurador-geral do INSS, Virgílio Oliveira Filho, em área restrita do Aeroporto de Congonhas (SP), em novembro de 2024. Imagens obtidas pela PF mostram os dois passageiros embarcando em voo particular com malas cujo conteúdo não foi identificado.
Trento e Oliveira Filho figuram na CPMI como suspeitos de integrar um esquema de descontos irregulares em aposentadorias. Parlamentares apuram se a escolta teria servido para evitar fiscalização sobre eventual transporte de dinheiro em espécie.
Busca e apreensão
Na operação Sem Desconto, deflagrada em abril pela PF e pela Controladoria-Geral da União, foram apreendidos cerca de US$ 200 mil em espécie (aproximadamente R$ 1,1 milhão), supostas obras de arte e joias na residência do agente em São Paulo. Coutinho e outros cinco servidores foram afastados naquele momento.
Defesa nega irregularidades
O advogado Cristiano Barros, que representa o policial, sustenta que o transporte dos passageiros em Congonhas seguiu “procedimentos legais e habituais” para autoridades, nega qualquer vantagem indevida e afirma que todos os bens do cliente estão declarados à Receita Federal. Segundo ele, relatórios anteriores de inteligência financeira não indicaram transações suspeitas.
Pressão da CPMI
A CPMI já aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do agente e tenta convocá-lo para depoimento. Sete pedidos de audiência aguardam deliberação, entre eles o da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). A comissão também quer esclarecer viagens “bate e volta” do servidor entre São Paulo e Brasília, pagas com recursos próprios, segundo a defesa.
O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), advertiu que poderá solicitar condução coercitiva de investigados que se recusarem a comparecer. A direção-geral da PF informou à comissão que o procedimento corre em sigilo no Supremo Tribunal Federal e, por isso, não comentará.
Além do possível conluio com Trento e Oliveira Filho, parlamentares investigam se Coutinho mantém ligação com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como principal operador das fraudes que teriam desviado valores bilionários de beneficiários da Previdência.
A CPMI ainda não encontrou indícios da participação de outros agentes públicos, mas avalia que o depoimento de Coutinho é peça-chave para desvendar o alcance do suposto esquema.
Com informações de Gazeta do Povo