Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo indicam que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli utilizaram aeronaves operadas por empresas ligadas ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e alvo de investigações por fraudes no sistema financeiro. A informação reacendeu questionamentos sobre possível conflito de interesse e levou especialistas a defender a abertura de uma investigação preliminar.
Como ocorreram os deslocamentos
No caso de Moraes, os voos teriam sido contratados pelo escritório de advocacia Barci de Moraes, pertencente à esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. A defesa de Moraes afirmou, em nota, que ele “jamais viajou em avião de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel” e classificou as suspeitas como “absolutamente falsas”.
Já Toffoli aparece em registro de um voo da Prime Aviation para Marília (SP), cidade cujo aeroporto é o mais próximo do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), destino frequente do ministro. Documentos do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo mostram deslocamento de seguranças para a região, reforçando a rota apontada.
Custos e operações anteriores
Reportagem da Gazeta do Povo publicada em janeiro mostrou que, entre dezembro de 2022 e o fim de 2024, viagens de Toffoli ao resort custaram cerca de R$ 450 mil em diárias de seguranças pagos pelo erário. A frequência das idas diminuiu em 2025, após as operações da Polícia Federal Carbono Oculto e Compliance Zero, que miraram negócios ligados a Vorcaro.
Posicionamento dos envolvidos
O escritório Barci de Moraes declarou que contrata diversos serviços de táxi aéreo, entre eles o da Prime Aviation, e que nenhum dos voos contou com a presença de Vorcaro ou Zettel. A banca ressaltou não manter vínculo pessoal com proprietários das aeronaves.
Até o fechamento desta edição, os ministros não responderam aos novos questionamentos enviados pela reportagem.
Juristas pedem investigação
Advogados consultados veem motivos suficientes para uma apuração. O criminalista Marcus Gusmão defende que indícios, ainda que superficiais, autorizam a abertura de procedimento a fim de esclarecer os fatos. Para o professor de Direito Administrativo Vitor Barretta, a confiança pública na imparcialidade do Judiciário exige transparência total nesses casos.
A constitucionalista Vera Chemim afirma que a ligação, mesmo indireta, entre ministros da Suprema Corte e um empresário investigado pode configurar conflito de interesse. Ela sustenta ainda que Moraes poderia ficar impedido de atuar em processos que envolvam Vorcaro ou empresas do grupo.
O advogado Bruno Gimenes Di Lascio concorda sobre o possível impedimento de Moraes, apontando que a existência de um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório da esposa do ministro reforça a necessidade de verificação. Em relação a Toffoli, ele considera o cenário menos claro, mas também passível de análise.
Próximos passos
Para os juristas ouvidos, a investigação deveria concentrar-se na origem dos recursos usados para pagar os voos, na eventual participação de Vorcaro e na compatibilidade dessas relações com as normas de ética pública. Eles ressaltam que a instauração de inquérito não implica presunção de culpa, mas funciona como instrumento de proteção institucional.
Com informações de Gazeta do Povo