Um ofício encaminhado pelo Banco Master ao Banco Central (BC) em novembro de 2024 comprova que a instituição financeira recebeu um ultimato da autarquia para corrigir problemas graves de governança e de liquidez pelo menos doze meses antes de ser liquidada extrajudicialmente.
O documento, acessado pelo Estadão e confirmado pela Gazeta do Povo, é assinado pelo controlador do banco, Daniel Vorcaro. Nele, o Master assume o compromisso de implementar, em até 180 dias — prazo que se encerrava em maio de 2025 —, medidas destinadas a reforçar a liquidez, aprimorar a gestão de riscos e reorganizar a estrutura de governança corporativa.
A resposta do Master atendia a um termo de compromisso enviado pelo BC ainda sob a presidência de Roberto Campos Neto, no fim de 2024. À época, o regulador já monitorava de perto a situação da instituição e havia imposto restrições, como a exigência de manter ativos líquidos suficientes para cobrir dívidas de curto prazo e a limitação de determinadas operações de crédito.
Pressão anterior à operação Compliance Zero
Investigadores que analisam o caso afirmam que a existência do acordo diminui a tese de que a liquidação, decretada em novembro de 2025 na gestão de Gabriel Galípolo, tenha ocorrido de forma repentina. Relatórios do BC indicam que, mesmo após o prazo concedido, o Master continuou enfrentando dificuldades, incluindo recolhimento insuficiente de depósitos compulsórios e dependência do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para honrar compromissos.
A defesa de Daniel Vorcaro sustenta que as ações pactuadas estavam em andamento e que o banco permanecia solvente até a intervenção, sob acompanhamento regular do BC em 2025. Vorcaro, que chegou a ter prisão preventiva decretada na primeira fase da operação Compliance Zero em novembro passado, cumpre atualmente prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.
Somente R$ 4 milhões em caixa
Em depoimento à Polícia Federal em 30 de dezembro, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, declarou que o Banco Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa quando a liquidação foi decretada. O valor contrasta com o volume financeiro investigado, estimado em R$ 12 bilhões, e com os cerca de R$ 80 bilhões em títulos mantidos pela instituição.
Segundo Aquino, pelo porte dos ativos, o Master deveria manter entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões em recursos líquidos para cobrir obrigações de curto prazo. A discrepância foi apontada como decisiva para a intervenção. O diretor comparou o caso à fraude do Banco Cruzeiro do Sul, descoberta em 2012, na qual a emissão de títulos sem lastro inflou artificialmente o balanço.
Os vídeos do depoimento foram divulgados após o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo dos autos a pedido do Banco Central.
Com informações de Gazeta do Povo