A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta-feira, 14 de janeiro de 2026, aprofunda o impasse entre a Polícia Federal e o ministro Dias Toffoli, relator do inquérito sobre o Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF).
Na ação, a PF cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Foram recolhidos 39 celulares, 31 computadores, 30 armas, R$ 645 mil em espécie e 23 veículos avaliados em R$ 16 milhões. Determinações judiciais bloquearam ainda R$ 5,7 bilhões.
Decisões em sequência
Logo após as diligências contra os empresários Fabiano Zettel e Nelson Tanure, sócios do controlador do banco, Daniel Vorcaro, Toffoli ordenou que todo o material fosse lacrado e remetido ao STF. A PF contestou, alegando risco de perda de dados se os equipamentos não fossem periciados de imediato.
Durante o dia, o ministro divulgou notas informando que o objetivo era preservar a integridade das provas. À noite, mudou novamente a orientação e determinou que os objetos fossem encaminhados diretamente à Procuradoria-Geral da República, encarregada de formar a “opinião ministerial” sobre o caso. Coube ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, providenciar o envio.
Centralização e sigilo
Toffoli assumiu o inquérito em 2025, invocando a presença de um deputado federal nos fatos – condição que garante foro privilegiado. Desde então, impôs sigilo máximo e condicionou novas diligências à sua autorização prévia. Investigadores relatam dificuldade para acessar documentos e, sobretudo, o celular de Vorcaro, apreendido em 17 de novembro e protegido por múltiplas camadas de criptografia.
Segundo despacho do ministro, mesmo depois da prisão em novembro, Vorcaro teria continuado a praticar delitos. A fraude inicial foi detectada pelo Banco Central na venda de títulos sem lastro ao Banco de Brasília (BRB), estimada em R$ 12 bilhões.
Apreensão de juristas e investigadores
Peritos ouvidos pela reportagem consideram o conteúdo do telefone do banqueiro essencial para identificar eventuais ligações com integrantes dos Três Poderes. Há receio de uso seletivo das informações, já que o processo corre sob alto grau de sigilo.
Especialistas em direito constitucional, como André Marsiglia, afirmam que o sigilo não pode impedir o acesso dos órgãos responsáveis pela apuração. O criminalista Márcio Nunes destaca que a Polícia Federal necessita de acesso técnico às provas para garantir a cadeia de custódia.
Atritos recentes
O clima de tensão ficou evidente ainda na autorização da operação de 14 de janeiro. Toffoli reclamou de “demora” da PF, que teria 24 horas para cumprir as buscas conforme ordem expedida na segunda-feira, 12. Em despacho, o ministro atribuiu eventual frustração da coleta de provas à “inércia” dos policiais.
Apesar das críticas, o diretor-geral da PF sustenta publicamente que a transferência do caso ao STF não compromete as investigações e ressalta a parceria com o Banco Central desde a primeira fase da operação.
Com a retirada das provas da custódia policial e o sigilo máximo imposto pelo relator, a condução do inquérito passa a ser questionada por investigadores e por parte do meio jurídico.
Com informações de Gazeta do Povo