A Rússia redirecionou sua estratégia para a América Latina e passou a tratar o Brasil como principal ponto de apoio na região. O movimento ficou evidente na 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN), realizada na quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, no Itamaraty, em Brasília.
Quem esteve presente – A delegação russa contou com o primeiro-ministro Mikhail Mishustin, o vice-premier Aleksei Logvinovich Overchuk, oito ministros, três vice-ministros, dirigentes de agências governamentais e cerca de 50 profissionais de imprensa. Todos chegaram em aeronaves usadas habitualmente pelo presidente Vladimir Putin.
Contexto – A captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro por tropas norte-americanas em 3 de janeiro praticamente encerrou a influência de Moscou em Caracas. Cuba, outro aliado histórico, enfrenta embargo de petróleo e dificuldades internas. Diante desse cenário, analistas apontam que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se tornou a nova plataforma russa na região.
Declaração russa – Mishustin classificou o Brasil como “principal parceiro econômico na América Latina” e lembrou que o comércio bilateral responde por quase metade do intercâmbio russo com toda a região. Ele destacou a compra de carne e café brasileiros e o fornecimento de fertilizantes pela Rússia.
Áreas de cooperação em negociação
- Energia nuclear – Intercâmbio de tecnologia, inclusive para mini reatores e para o submarino nuclear Álvaro Alberto.
- Exploração espacial – Projetos conjuntos em ciência e tecnologia, com eventual uso da base de Alcântara (MA).
- Segurança cibernética – Oferta russa de suporte em defesa digital; especialistas lembram casos de espionagem envolvendo empresas do país.
- Comércio agrícola – Ampliação do fornecimento de fertilizantes russos ao Brasil e de carnes brasileiras a Moscou.
- BRICS – Discussão sobre sistemas de pagamento alternativos ao dólar entre bancos centrais dos países do bloco.
- Apoio diplomático – Sinalização russa a favor de uma cadeira permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.
O que dizem os especialistas
Cezar Roedel, mestre em Relações Internacionais pela UFRGS, observa que a declaração conjunta indica “aproximação acima do esperado” e ressalta o risco de dual use em tecnologias sensíveis. Elton Gomes, professor da UFPI, avalia que o diálogo pode levar a um alinhamento gradual com o bloco sino-russo. Já Adriano Gianturco, do IBMEC, duvida que Moscou transfira tecnologia estratégica sem contrapartidas financeiras.
Impacto comercial – A Rússia respondeu por 27,3% das importações brasileiras de fertilizantes em 2024 e por 25,9% em 2025, enquanto a participação chinesa cresce. Especialistas veem nessa disputa um fator de pressão sobre a política externa brasileira.
A reunião em Brasília alterou a rotina diplomática da capital e marcou um novo capítulo na relação entre os dois países, agora vista por Moscou como essencial para manter presença na América Latina.
Com informações de Gazeta do Povo