Brasília — A ordem do ministro Alexandre de Moraes, que transformou em definitiva nesta terça-feira (25) a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe, marca o ponto mais alto de uma sequência de reveses impostos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à direita brasileira desde 2019.
Judicialização da política
Segundo o cientista político Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o embate ganhou força quando a fragmentação do Congresso restringiu a formação de maiorias. “A esquerda viu no STF um caminho para contornar o impasse e substituir o Legislativo”, afirma. Para ele, a Corte passou a atuar “como um partido político”, barrando pautas do governo Bolsonaro e, agora, reforçando medidas do governo Lula.
Derrotas acumuladas
A primeira grande perda da direita ocorreu em novembro de 2019, quando o STF derrubou a prisão após condenação em segunda instância, decisão que abriu caminho para a libertação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em 2021, o ministro Edson Fachin anulou condenações da Lava Jato contra Lula, restituindo seus direitos políticos.
No mesmo período, o chamado Inquérito das Fake News inaugurou investigações conduzidas e julgadas pelo próprio STF, atingindo parlamentares, jornalistas e empresários alinhados a Bolsonaro. Bloqueios de contas, quebras de sigilo e prisões preventivas — como as de Daniel Silveira e Roberto Jefferson — tornaram-se frequentes.
Pandemia amplia tensões
Em 2020, durante a crise de Covid-19, o STF garantiu a estados e municípios autonomia para adotar medidas sanitárias, retirando da União o comando central da resposta à pandemia. Decisões sobre vacinação, funcionamento de templos e restrições econômicas contrariaram diretrizes do Planalto.
Eleições de 2022 sob forte controle
A disputa presidencial de 2022 levou o embate ao TSE. Bolsonaro foi impedido de fazer lives de campanha em prédios oficiais, influenciadores aliados tiveram contas suspensas e conteúdos foram derrubados. Peças que ligavam Lula a ditaduras latino-americanas ou mencionavam sua condição de ex-presidiário também foram vetadas.
Pós-governo Bolsonaro
Com Lula de volta à Presidência em 2023, o TSE declarou Bolsonaro inelegível até 2030 por abuso de poder político; o prazo foi estendido até 2060 após o trânsito em julgado da condenação por tentativa de golpe. Investigações sobre os atos de 8 de janeiro resultaram em buscas, bloqueios de bens e penas severas a manifestantes, muitos julgados diretamente no STF.
Processo até a prisão
Em 4 de agosto de 2025, Bolsonaro foi colocado em prisão domiciliar por suspeita de tramar um golpe. No sábado (22), a medida virou prisão preventiva na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, sob alegação de risco de fuga, organização de vigília e violação de tornozeleira eletrônica. Três dias depois, Moraes determinou o início da pena de 27 anos de prisão em regime fechado.
Para o professor Adriano Cerqueira, do Ibmec-BH, a atuação do Judiciário é “dirigida”, sem a mesma severidade em casos que envolvem a esquerda. Apesar dos reveses, a direita ampliou bancadas no Congresso e mantém capacidade de mobilização nas redes sociais, mesmo diante de bloqueios e desmonetizações.
Com a prisão definitiva do ex-presidente, consolida-se um ciclo iniciado em 2019, no qual o Supremo e o TSE se tornaram os principais freios às agendas e candidaturas conservadoras no país.
Com informações de Gazeta do Povo