Brasília – Um relatório encaminhado pela Polícia Federal (PF) à Justiça Federal nesta semana indica possível vazamento de informações da operação “Zona Cinzenta”, que investiga aplicações de aproximadamente R$ 400 milhões feitas pela Amapá Previdência (Amprev) em títulos do Banco Master. O documento descreve o desaparecimento do aparelho celular de uso contínuo de Jocildo Silva Lemos, então diretor-presidente da autarquia e aliado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Saída antes da chegada dos agentes
Segundo a PF, a equipe chegou à residência de Lemos por volta das 6h de sexta-feira (6). Familiares permitiram a entrada, mas o dirigente havia deixado o local minutos antes, justificando que faria atividade física e levando o telefone pessoal.
Quando retornou, ainda durante o cumprimento do mandado, Lemos não demonstrou surpresa e entregou aos agentes um aparelho habilitado havia poucos dias, sem registros de chamadas ou mensagens. Questionado, afirmou ter repassado o celular habitual a um amigo na noite anterior por “problema na tela”.
Ligação suspeita e busca pelo aparelho
O mesmo amigo, que também trabalha na Amprev, telefonou para o celular da esposa de Lemos instantes antes de a operação começar. O aparelho da mulher foi apreendido, e a PF determinou a entrega do telefone original do dirigente, ainda não confirmada.
Investigadores avaliam se o episódio revela tentativa de obstruir a coleta de provas e se outras pessoas ligadas ao caso foram alertadas previamente.
Renúncia ao cargo
Na manhã de quarta-feira (11), Lemos pediu exoneração. Em nota, declarou manter “absoluto compromisso com a verdade” e disse que sob sua gestão o patrimônio da Amprev cresceu 41% entre 2023 e 2025.
Foco das investigações
A PF apura decisões tomadas em julho de 2024, quando o comitê de investimentos da Amprev aprovou, em menos de 20 dias, quatro aportes que totalizaram R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master, papéis sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Atas revelam que dois conselheiros alertaram sobre riscos, mas foram voto vencido.
Além de Lemos, são investigados Jackson Oliveira e José Milton Gonçalves, membros do comitê que referendaram os aportes. O Ministério Público do Amapá acompanha o caso e pode apresentar denúncia se encontrar indícios suficientes.
Relação com Davi Alcolumbre
Davi Alcolumbre não é alvo de medidas judiciais. Sua assessoria nega participação na indicação ou nas decisões de investimento da Amprev. O irmão do senador, Alberto Alcolumbre, integra o Conselho Fiscal da autarquia desde agosto de 2025, mas também não é investigado.
A Amprev administra o regime próprio de previdência de cerca de 40 mil servidores do Amapá. Em nota, afirma ter sido lesada pelo Banco Master e menciona ações judiciais para recuperar valores, lembrando que as aplicações representam 4,7% de sua carteira.
Enquanto isso, no Congresso, a oposição pressiona pela instalação de uma CPMI para apurar o colapso do Banco Master. O requerimento já tem assinaturas necessárias, mas depende de leitura em sessão conjunta, prerrogativa de Alcolumbre.
Com informações de Gazeta do Povo