Brasília – A investida da Polícia Federal que resultou no indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por tentativa de obstrução da Justiça, em 20 de agosto de 2025, tornou público um ambiente de conflito dentro do campo conservador e impôs novos obstáculos às tratativas para a eleição presidencial de 2026.
Autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a operação incluiu mandados de busca e apreensão contra o pastor Silas Malafaia. Mensagens extraídas de celulares apreendidos revelaram atritos entre a família Bolsonaro, aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), e siglas da centro-direita que buscam se alinhar para o próximo pleito.
Conflitos familiares e orientação política
Relatório da PF numerado 3305694/2025 reuniu áudios e conversas que mostram:
- Eduardo Bolsonaro reagindo com ofensas depois de Jair Bolsonaro ter elogiado Tarcísio e citado “imaturidade” do filho durante entrevista em 15 de julho;
- Silas Malafaia chamando o deputado de “inexperiente” e sugerindo estratégias de comunicação ao ex-presidente, como a gravação de vídeos em vez da divulgação de cartas;
- Discussões sobre como explorar politicamente o “tarifaço” aplicado pelos Estados Unidos ao Brasil e as sanções previstas na Lei Magnitsky Global contra Moraes.
PF vê tentativa de pressionar governo americano
Na avaliação dos investigadores, Jair Bolsonaro, seus filhos e assessores teriam atuado para sensibilizar autoridades estrangeiras a adotar sanções contra o Estado brasileiro com o objetivo de garantir eventual impunidade. O relatório destaca “consciência e vontade” dos indiciados ao buscar apoio externo.
Efeito na sucessão de 2026
O vazamento das conversas ocorre no momento em que dirigentes de PL, Republicanos, União Brasil, PP, PSD e MDB discutem a formação de uma candidatura única de centro-direita. Em jantar realizado em 19 de agosto, logo após a criação da federação União Brasil-PP, doze governadores voltaram a cogitar o nome de Tarcísio de Freitas para encabeçar a chapa.
Nos bastidores, aliados analisam se a exposição de intrigas internas pode reduzir a influência do ex-presidente nas negociações. Para o consultor Leonardo Barreto, da Think Policy, Bolsonaro ainda carrega peso eleitoral, mas sua relação com partidos de centro sai fragilizada. Já o cientista político Ismael Almeida avalia que o impacto será limitado, pois a base mais fiel tende a encarar as mensagens como questões privadas.

Imagem: Sílvio RibasBrasília via gazetadopovo.com.br
A repercussão levou Eduardo Bolsonaro a minimizar os ataques ao pai, tratando-os como divergências familiares, enquanto parlamentares oposicionistas afirmam que novas revelações podem embasar pedido de prisão preventiva.
O STF marcou para setembro o julgamento de ações que podem agravar a situação jurídica de Jair Bolsonaro. Até lá, dirigentes partidários avaliam cenários: de um lado, a possibilidade de um campo conservador liderado por um nome alternativo; de outro, a manutenção da dependência do capital eleitoral do ex-presidente.
Com informações de Gazeta do Povo