Brasília — O presidente da Unafisco Nacional (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), Kléber Cabral, afirmou nesta quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026, que o clima de pressões judiciais tem desestimulado a fiscalização de agentes públicos de alto escalão, tornando “menos arriscado fiscalizar membros do PCC do que altas autoridades da República”.
A declaração foi dada em entrevista à GloboNews, um dia após a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão contra servidores da Receita Federal e do Serpro, determinar o uso de tornozeleira eletrônica e afastá-los de suas funções. A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no inquérito das fake news, que apura suposto acesso e vazamento de dados fiscais de magistrados e parentes.
Segundo Cabral, a imposição de medidas cautelares sem processo administrativo prévio ou prova de crime grave “humilha, constrange e amedronta” a categoria. “Se você perguntar hoje quem aceita montar um grupo para fiscalizar autoridades, provavelmente não encontra ninguém”, declarou.
Críticas à proporcionalidade
O dirigente classificou as medidas como desproporcionais e recordou que a entidade “já cansou” de alertar para falhas no devido processo legal dentro do inquérito das fake news. Ele acrescentou que o contrato de R$ 129 milhões entre o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes — esposa de Alexandre de Moraes — e o Banco Master não costuma ser arquivado nos sistemas da Receita, questionando a origem do documento divulgado pela imprensa.
Cabral também levantou a hipótese de que os dados possam ter vazado de outras fontes, como contadores, advogados, bancos ou celulares apreendidos. “Esse documento pode ter vazado de inúmeros lugares”, disse.
Casos recentes e passados
Um dos alvos da PF, auditor fiscal no interior de São Paulo, admitiu ter acessado em novembro de 2025 informações de uma parente do ministro Gilmar Mendes, alegando curiosidade por causa de um sobrenome comum. Cabral contou que, em 2019, dois auditores foram afastados sob suspeita de vazamento de dados de Gilmar Mendes, mas reintegrados meses depois por falta de provas. “As fiscalizações nunca mais aconteceram”, lembrou.
Para o presidente da Unafisco, operações como a desta semana provocam “paralisia” quando o alvo são grandes autoridades, enquanto o risco de investigar organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), seria menor diante da atual conjuntura.
Com informações de Gazeta do Povo