O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) procura uma forma diplomática de rejeitar o convite do presidente norte-americano Donald Trump para integrar o “Conselho da Paz de Gaza”, iniciativa que o governo dos Estados Unidos pretende expandir a outros conflitos internacionais. A movimentação, conduzida desde a semana passada, estreita ainda mais a parceria de Lula com o líder chinês Xi Jinping, principal defensor da manutenção do papel central da Organização das Nações Unidas (ONU).
Pressão de Pequim e cautela de Brasília
Em telefonema de 23 de janeiro, Xi Jinping solicitou a Lula que se posicione contra o novo organismo proposto por Trump e prometeu apoio adicional caso Brasil e China atuem em conjunto pela defesa do multilateralismo. Segundo a mídia estatal chinesa, o presidente asiático afirmou que ambos os países devem permanecer “do lado certo da história” e proteger os interesses do chamado Sul Global.
China e Rússia, que detêm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, avaliam oficialmente a proposta norte-americana, mas veem com reserva qualquer estrutura que possa substituir a entidade multilateral. A França já anunciou que ficará de fora – decisão que levou Washington a ameaçar novas tarifas comerciais contra Paris.
Contato direto com Trump
Lula conversou por telefone com Trump em 26 de janeiro. De acordo com o Palácio do Planalto, o brasileiro sugeriu que o conselho se limite ao conflito em Gaza e inclua representação palestina, além de reiterar a necessidade de uma reforma ampla da ONU que amplie os assentos permanentes do Conselho de Segurança.
O encontro presencial entre os dois presidentes está previsto para fevereiro, em Washington. Até lá, auxiliares de Lula trabalham para que a negativa brasileira não seja interpretada como afronta à Casa Branca.
Alinhamento com Macron e outros líderes
No dia 27, Lula conversou por quase uma hora com o presidente francês Emmanuel Macron. Ambos defenderam o fortalecimento da ONU e condenaram iniciativas unilaterais em temas de paz e segurança. Na mesma ligação, criticaram a operação militar dos EUA que resultou na prisão do venezuelano Nicolás Maduro, classificando a ação como violação do direito internacional.
Antes disso, em 22 de janeiro, o presidente brasileiro dedicou a agenda a telefonemas para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi – atual presidente do Brics –, bem como para o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e para o mandatário turco, Recep Tayyip Erdogan. Todos discutiram a reconstrução de Gaza e a reforma do sistema multilateral.
Especialistas veem dilema diplomático
Para Rafael Pons Reis, doutor em Sociologia Política, a defesa da ONU é coerente com a tradição brasileira de buscar fóruns multilaterais como proteção a decisões unilaterais de grandes potências. Já o internacionalista Rafael Moredo avalia que a proposta de Trump cria uma “armadilha”. Recusar o conselho pode sinalizar distanciamento dos EUA; aderir significaria chancelar uma “ONU paralela”, em choque com o histórico discurso brasileiro.
No Planalto, a avaliação é de que a decisão expõe um dilema estrutural: preservar o multilateralismo sem se afastar excessivamente de Washington, enquanto cresce a rivalidade entre EUA e China.
Com informações de Gazeta do Povo