Brasília — A pouco mais de um ano do início oficial da disputa presidencial de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem assumido, em agendas de governo, o discurso de candidato à reeleição. A estratégia, marcada por viagens, slogans e anúncios de programas, levou parlamentares da oposição a afirmar que há abuso da estrutura pública e possível propaganda eleitoral antecipada.
Viagens, slogans e alianças
Nas últimas semanas, Lula intensificou compromissos pelo país, amparado em pesquisas que indicam recuperação de popularidade. Paralelamente, busca aproximação com dirigentes de MDB, Republicanos, União Brasil e PSD, na tentativa de construir uma aliança ampla para 2026.
O Planalto lançou o pacote de auxílio “Brasil Soberano”, destinado a empresas afetadas pelo recente aumento de tarifas dos Estados Unidos. A campanha publicitária do programa estampa frases como “Do lado dos brasileiros” e retoma o bordão “O Brasil é dos brasileiros”.
Tom de confronto
A retórica presidencial mantém a polarização com a direita ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e agora inclui críticas à Casa Branca. Na reunião ministerial de 26 de agosto, Lula usou um boné azul com o slogan “O Brasil é dos brasileiros”, em contraste ao vermelho do “MAGA”, associado a Donald Trump, e pediu que ministros reforçassem o tema soberania em entrevistas.
Em discurso, acusou “entreguistas” de apoiar interesses estrangeiros, criticou Trump por agir “como imperador do mundo” e exigiu que empresas internacionais sigam as leis brasileiras.
PAC, Congresso e prazos
No mesmo encontro, foi cobrada agilidade no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) — vitrine de obras federais — para evitar que projetos fiquem inacabados no ano eleitoral. No Congresso, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, prioriza três propostas vistas como vitais para a campanha: isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, a PEC da Segurança e a regulação das redes sociais.
Candidatura condicionada à saúde
Perto de completar 80 anos, Lula afirma que só deixará de concorrer caso a saúde impeça. Em 21 de agosto, em Sorocaba (SP), ao entregar consultórios odontológicos móveis, brincou com a possibilidade de um “quarto mandato”. Dias depois, no Rio de Janeiro, declarou que “o país terá um presidente eleito quatro vezes”. Em julho, no Ceará, garantiu: “Serei candidato para ganhar as eleições”.
Consultores políticos veem na antecipação de discursos uma tática para conter desgastes com inflação, denúncias de corrupção e crises internacionais. Para demonstrar vitalidade, o petista divulga vídeos de musculação e promete subir correndo a rampa do Planalto em janeiro de 2027, aos 81 anos, se reeleito.

Imagem: Isaac Ftana
Debate jurídico
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que atos de Lula podem ser contestados na Justiça Eleitoral. O advogado Antônio Augusto Mayer lembra que a lei permite ação imediata quando há indícios de propaganda extemporânea.
O cientista político Paulo Kramer afirma que o presidente participa de palanques “ao menos uma vez por semana” — como o previsto para 29 de agosto, em Contagem (MG), sob o argumento de anunciar obras do Novo PAC. Ele teme, contudo, que possíveis sanções atinjam apenas candidatos da direita.
Reações no Congresso
A oposição ainda não ingressou com ação formal, mas acumula material. O deputado Luciano Zucco (PL-RS) classificou o pacote de R$ 30 bilhões para exportadores atingidos pelo tarifaço norte-americano como “eleitoreiro”. Já Nikolas Ferreira (PL-MG) acusou a campanha digital do governo de promover a “Taxação BBB” — bancos, bilionários e apostas on-line — para polarizar o debate.
Em junho, durante participação no podcast “Mano a Mano”, Lula disse que, se concorrer, “será para ganhar”, e comemorou a multiplicidade de pré-candidaturas na centro-direita. Nos bastidores, avalia que o adversário mais provável em 2026 será o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Desde Fernando Henrique Cardoso, todos os presidentes brasileiros tentaram a reeleição, mas especialistas alertam que o uso excessivo de recursos estatais pode levar a punições por propaganda antecipada ou abuso de poder.
Com informações de Gazeta do Povo