Brasília – Durante o terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem se destacado como principal voz do Brics em favor de uma nova ordem econômica que dispense o dólar nas transações internacionais, posição que nem China, Índia ou Rússia têm exposto publicamente.
Especialistas ouvidos apontam que a atuação do petista ganhou força após a decisão do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump de impor tarifa de 50% a produtos brasileiros. A medida, vista como recado político, pressiona o governo a escolher lado na crescente polarização mundial.
Discurso isolado dentro do bloco
Segundo o mestre em Relações Internacionais Cezar Roedel, nem o premiê indiano Narendra Modi, próximo a assumir a presidência rotativa do grupo, nem o líder chinês Xi Jinping, nem o presidente russo Vladimir Putin, têm defendido publicamente a substituição do dólar. Coube a Lula sustentar o tema, influenciado pelo assessor especial Celso Amorim, mesmo diante de estatísticas que mantêm a moeda americana em cerca de 90% das operações cambiais globais e em 95% das exportações brasileiras.
Roedel classifica a proposta como “visão ultrapassada” e avalia que Brasil, ainda fortemente dependente do dólar, teria peso limitado numa eventual rearrumação monetária.
Interesse direto de Moscou e Pequim
Apesar do silêncio diplomático, Rússia e China já criaram sistemas próprios de pagamento que evitam a divisa norte-americana. Moscou busca contornar sanções ligadas à guerra na Ucrânia, enquanto Pequim almeja fortalecer o yuan. Mesmo assim, é o presidente brasileiro quem tem verbalizado a pauta.
Utilidade política doméstica
Para o cientista político Adriano Gianturco, do Ibmec-BH, a retórica antidólar serve mais para consolidar alianças e projetar liderança no chamado Sul Global do que para produzir efeitos econômicos imediatos. Ele lembra que o Brasil não ocupa posição central nas cadeias produtivas internacionais.
Antecedentes do discurso
Lula questiona a hegemonia do dólar desde abril de 2023, quando, em Xangai, perguntou por que países precisariam lastrear comércio na moeda norte-americana. A crítica, no entanto, remonta a 2008, com o lançamento do Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) entre Brasil e Argentina. Em 2024, R$ 3,3 bilhões em exportações brasileiras para Buenos Aires usaram o mecanismo.
No plano multilateral, o projeto Brics Pay pretende criar plataforma de compensação entre moedas nacionais para competir com o sistema Swift, mas ainda não saiu do papel.

Imagem: Ricardo Stuckert via gazetadopovo.com.br
Choques com Washington
Além da agenda financeira, decisões como a recepção de navios de guerra iranianos no Rio de Janeiro em março de 2023 e o pouso, em agosto de 2025, de um cargueiro russo sancionado acirraram tensões com os Estados Unidos. Parlamentares brasileiros criticam a falta de explicações e veem risco de isolamento diplomático.
País-pêndulo sob pressão
Brasil e Índia são descritos como “países-pêndulo” por evitarem alinhamento automático a potências. Analistas entendem que o tarifaço de Trump pode forçar Brasília a rever essa postura e escolher entre Washington e a crescente aproximação com Moscou e Pequim.
Deputados de oposição, como Marcel van Hattem (Novo-RS) e Coronel Armando (PP-SC), consideram a estratégia de Lula irresponsável e apontam custos bilionários para setores afetados pelas tarifas. Luiz Lima (Novo-RJ) compara o movimento brasileiro ao caminho percorrido pela Venezuela ao confrontar os Estados Unidos.
Enquanto isso, Rússia e China seguem cautelosas ao questionar o dólar publicamente, deixando o protagonismo retórico nas mãos do presidente brasileiro.
Com informações de Gazeta do Povo