O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu com dureza ao ataque ordenado por Donald Trump que levou à captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, mas manteve discurso ponderado sobre a invasão russa à Ucrânia, evitando responsabilizar diretamente Vladimir Putin.
Reprovação a Washington
No sábado (3), após bombardeios em Caracas e a prisão de Maduro, Lula divulgou nota classificando a ação norte-americana como “afronta gravíssima à soberania da Venezuela” e afirmou que os Estados Unidos “ultrapassam uma linha inaceitável”.
A postura segue o tom adotado em maio de 2023, quando Lula recebeu Maduro no Palácio do Planalto. À época, comparou as sanções impostas por Washington a “crimes de guerra” ao dizer que “o bloqueio é pior do que uma guerra”.
Críticas similares foram repetidas em outubro de 2025, já no segundo mandato de Trump, diante do reforço da frota naval dos EUA no Caribe. “Nenhum presidente deve dar palpite sobre a Venezuela”, declarou Lula em Brasília, defendendo a autodeterminação venezuelana. Dias depois, na Indonésia, voltou a atacar operações americanas contra o narcotráfico na costa do país vizinho: “Você não pode simplesmente invadir o território de outro país”.
As declarações geraram reação de líderes regionais e de organizações de direitos humanos. O presidente do Chile, Gabriel Boric, cobrou “posição firme” diante do êxodo venezuelano, enquanto a diretora da Human Rights Watch, Tamara Taraciuk Broner, chamou de “insulto às vítimas” a ausência de referências aos abusos cometidos pelo regime de Caracas.
Discurso cauteloso sobre Moscou
Em contraste, as falas de Lula sobre a guerra na Ucrânia distribuem responsabilidades entre Kiev e Moscou. Durante a cúpula do G7, em Hiroshima, em maio de 2023, o petista afirmou que “quando um não quer, dois não brigam” e cobrou mais empenho por “quem quer a paz”.
Um mês antes, em Lisboa, criticou o envio de armas norte-americanas a Kiev: “É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra”. A posição rendeu resposta do porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Kirby, que acusou o Brasil de “papaguear a propaganda russa e chinesa”.
Já em setembro de 2025, após ataques russos a áreas civis de Kiev, o Itamaraty manifestou “profundo pesar” pelas vítimas, mas não mencionou a Rússia como autora dos bombardeios.
BRICS ampliado e disputa de influência
A diferença de tom reflete a estratégia do governo brasileiro de fortalecer o bloco dos Brics – agora integrado também por Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Venezuela – em contraposição à presença dos Estados Unidos na América Latina, intensificada sob Trump.
Enquanto condena abertamente a intervenção norte-americana em Caracas, o Planalto mantém cautela em atribuir culpa exclusiva a Moscou, buscando preservar a relação com um dos principais parceiros do agrupamento econômico.
Com o conflito na Ucrânia ainda sem perspectiva de cessar-fogo e a crise política venezuelana agravada pela captura de Maduro, a diplomacia brasileira segue tentando equilibrar interesses globais divergentes.
Com informações de Gazeta do Povo