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Sob pressão das pesquisas, Lula ajusta discurso sobre segurança pública e expõe contradições

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mudou sucessivas vezes o tom ao tratar de segurança pública desde que iniciou o terceiro mandato, em janeiro de 2023. Levantamento feito com apoio da ferramenta Google Pinpoint, que analisou discursos do Planalto e pesquisas de opinião de 2023 a 2025, mostra que cada inflexão ocorreu após a criminalidade ganhar espaço nas preocupações do eleitorado.

De críticas à polícia ao avanço do temor popular

Em março de 2023, durante o relançamento do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, Lula afirmou que “nas periferias o Estado muitas vezes só aparece com a polícia para bater”. Especialistas como o advogado Alex Erno Breunig avaliaram que a fala deslegitimou as corporações policiais.

Um mês depois, pesquisa Genial/Quaest (13 a 16 de abril de 2023, 2.015 entrevistas, margem de erro de 2,2 pontos) indicou que a violência já era a segunda maior preocupação nacional (22%), atrás apenas da economia (31%). Naquele momento, a desaprovação ao presidente chegava a 42%.

Promessas sem efeito prático

Em julho de 2023, ao lançar o Programa de Ação na Segurança (PAS), Lula prometeu reduzir a violência e “devolver a normalidade” ao cotidiano. Entretanto, organizações criminosas ampliaram território e lucros, segundo o investigador federal Sérgio Gomes.

Nova rodada Quaest (5 a 8 de julho de 2024, 2 mil entrevistados) manteve a violência no topo das inquietações (19%), logo atrás da economia (21%). A aprovação ao governo era de 54%; a reprovação, de 43%.

Explosão de roubos de celulares muda o tom

Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em agosto de 2024 apontou que 9,2% dos brasileiros perderam o celular para roubos ou furtos entre julho de 2023 e junho de 2024, o que corresponde a 14,7 milhões de vítimas e prejuízo de R$ 22,7 bilhões. Após o levantamento, Lula declarou que o país “não seria uma República de ladrões de celulares”, contradizendo críticas anteriores às polícias.

Em dezembro de 2024, o governo editou decreto que regulamentou o uso da força policial, impondo restrições e vinculando repasses federais à adesão dos estados. Diante da reação negativa, divulgou nota em janeiro de 2025 alegando “desinformação”.

Violência assume o topo das preocupações

A virada veio em março de 2025, quando pesquisa Genial/Quaest mostrou a violência como principal problema do país para 29% dos entrevistados, superando economia e questões sociais. Lula então passou a repetir que “o Estado é mais forte que os bandidos” e defendeu a PEC da Segurança Pública, que travou no Congresso por temores de centralização de poder.

Plano de desencarceramento gera reação

Apesar do discurso mais duro, em fevereiro de 2025 o Planalto lançou, com CNJ e STF, o Plano Pena Justa, voltado a reduzir a superlotação carcerária — o Brasil possui cerca de 942 mil presos. Para o jurista André Marsiglia, a medida contrasta com o enfrentamento ao crime organizado, pois libera detentos responsáveis por pequenos delitos que financiam facções.

Declarações sobre tráfico e pressões regionais

Em outubro de 2025, Lula afirmou que traficantes são “vítimas dos usuários”, declaração rejeitada por 81% dos brasileiros em pesquisa Genial/Quaest (6 a 9 de novembro, 2.004 entrevistas). No mesmo mês, Instituto Paraná Pesquisas apontou que 45,8% acreditavam que a segurança piorou no atual governo.

Mesmo criticando megaoperações da polícia no Rio de Janeiro, o Planalto enviou o PL Antifacção ao Congresso e sancionou a Lei 15.245/2025, de autoria do senador Sergio Moro (União-PR), dois dias após grande ação contra o Comando Vermelho.

Saída de Lewandowski e balanço das contradições

O então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski deixou o cargo em 8 de janeiro de 2026 em meio a cobranças por resultados. Analistas como Luiz Augusto Módolo observam que o governo alternou críticas às forças de segurança, defesa de políticas humanitárias e endurecimento retórico, sempre reagindo às pesquisas de opinião sem consolidar uma estratégia de longo prazo.

Com a violência consolidada como principal preocupação nacional e eleições de 2026 no horizonte, especialistas preveem novos ajustes no discurso presidencial sobre segurança pública.

Com informações de Gazeta do Povo