Brasília – A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, anunciada na semana passada, colocou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, no centro de uma ofensiva de ministros e lideranças do PT. O movimento ocorre menos de um ano após o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamá-lo de “menino de ouro” ao indicá-lo para a autarquia.
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, declarou que Galípolo “deixou a desejar” por não levar em conta, segundo ela, dados que permitiriam reduzir os juros. Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou à CNN em 11 de novembro que “há espaço para corte”, citando a inflação de 4,5% e o juro real próximo de 10%, mas ponderou que o chefe do BC “faz um bom trabalho”.
O duplo discurso reflete o dilema no governo: respeitar a autonomia do Banco Central ou atender à pressão da base política por juros menores, expectativa que ganhou força após Galípolo assumir o comando em janeiro de 2025.
Selic elevada x rombo fiscal
Enquanto a taxa brasileira é a segunda mais alta do mundo, atrás apenas da russa, analistas veem o debate sobre o Copom como “cortina de fumaça”. Para Alexandre Manoel, pesquisador do FGV Ibre e sócio da Global Intelligence and Analytics, o foco deveria estar no desequilíbrio das contas públicas.
“Discutir a Selic é secundário diante da deterioração fiscal pelo lado da despesa. A taxa básica é sintoma, não causa”, disse. O juro real, descontada a inflação, gira em torno de 8%.
Contas públicas pressionadas
Entre janeiro e setembro de 2025, o governo central acumulou déficit superior a R$ 100 bilhões. Projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI) e de analistas do mercado apontam resultado negativo acima de 0,6% do PIB este ano.
As despesas do governo central subiram de 18% do PIB em dezembro de 2022 para 18,8% no fim de 2024, patamar que se manteve até setembro de 2025. Paralelamente, a dívida bruta avançou de 71,7% do PIB em 2022 para 78,1% em setembro de 2025. A mediana do relatório Prisma Fiscal indica 83,6% do PIB em 2026, ante 82,3% projetados pela Fazenda.
Haddad defende corte, mas condiciona a mercado
Haddad sustenta que o governo entregará “o melhor resultado fiscal em quatro anos” e credita eventual aproximação da meta de 2025 ao chamado empoçamento — verbas liberadas que não chegam a ser gastas. Em 10 de novembro, após encontro com a Febraban, mencionou apoio de banqueiros, entre eles André Esteves, do BTG Pactual, à queda dos juros.
Questionado sobre as declarações, Galípolo respondeu: “Todo mundo pode brigar com o Banco Central. O Banco Central é que não pode brigar com os dados”.
Mercado espera início de afrouxamento em 2026
Para instituições financeiras, a redução da Selic pode começar nas primeiras reuniões de 2026, em janeiro ou março, caso se confirme o arrefecimento da atividade e a “leve melhora” das expectativas de inflação mencionadas na ata do Copom. Carlos Henrique, CEO da Sttart Pay, avalia que o corte depende de “plano fiscal crível” que contenha a trajetória da dívida.
Calendário eleitoral trava ajuste estrutural
Analistas veem pouca chance de debate profundo sobre ajuste fiscal em ano de eleição municipal. Segundo Alexandre Manoel, a percepção de gravidade ainda não chegou à população, que sente impacto maior na oferta de crédito do que na dinâmica da dívida.
“Com gasto e dívida nessa rota, em algum momento o lado monetário vai pesar na economia real”, disse o economista, comparando o cenário atual ao período de 2010-2012, quando desequilíbrios se agravavam apesar do crescimento.
Para Manoel, o tema deveria ser prioridade da oposição nas eleições presidenciais de 2026, sob risco de expansão de 20 pontos percentuais na dívida pública em oito anos se nada mudar.
Com informações de Gazeta do Povo