Brasília, 29 de setembro de 2025 – Diplomatas brasileiros e norte-americanos trabalham para agendar, nos próximos dias, a primeira conversa formal entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o norte-americano Donald Trump após o rápido encontro de 23 de setembro, nos bastidores da 80ª Assembleia-Geral da ONU. Analistas consultados veem pouca margem para repetir a “excelente química” exibida no abraço de 39 segundos em Nova York, mas apostam em um esforço para isolar a pauta econômica das divergências políticas.
Pressão empresarial empurra negociação comercial
No discurso feito na ONU, Trump sinalizou disposição para reduzir tarifas de importação que hoje chegam a 50 % sobre produtos brasileiros. Segundo o analista financeiro VanDyck Silveira, a iniciativa abriu espaço para tratativas envolvendo café, carne e outros itens, sem, contudo, amenizar o “pior momento histórico” das relações bilaterais. “O impasse é ideológico e não dá sinais de recuo”, resume.
Ismar Becker, conselheiro de empresas exportadoras, avalia que a reação positiva do mercado justifica o avanço das conversas, ainda que resultados concretos só devam surgir após cerca de um mês de ajustes técnicos. Para o setor privado, uma queda tarifária para 20 % já aliviará pressões de custo.
Temas prováveis e assuntos fora da mesa
Entre os pontos em análise estão a instalação de data centers de big techs nos dois países, a tributação do etanol e a exploração conjunta de minerais críticos. Fonte diplomática considera improvável que o debate inclua vistos para autoridades brasileiras ou a aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pelo STF, fator que motivou o chamado “tarifaço”, deve ser evitada na conversa. Silveira lembra que Trump mantém críticas ao que classifica como “ativismo judicial” no Brasil e não pretende ceder a pressões de gigantes de tecnologia para suavizar o tom.
Peso político do encontro
Para Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, Lula enfrenta o dilema de conciliar discurso ideológico com necessidades econômicas em ano pré-eleitoral. Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), aliado de Trump, diz que o republicano apenas aplicou sua estratégia negociadora habitual: elevar a tensão para ganhar força na mesa.
Possibilidade de constrangimento público para o presidente brasileiro também é apontada por governistas e oposição, razão pela qual o chanceler Mauro Vieira sugeriu que o diálogo ocorra por videoconferência ou telefone, citando “restrições de agenda”.
Troca de farpas na ONU
Na Assembleia-Geral, Lula acusou os Estados Unidos de ingerência externa, rejeitou sanções a ministros do STF e vinculou a defesa da democracia à negação de anistia a Bolsonaro. Em resposta, Trump defendeu medidas unilaterais de proteção aos interesses norte-americanos, acusou o Brasil de censura e perseguição política, mas declarou ter tido “excelente química” com Lula.
Apesar da tensão retórica, o secretário de Estado Marco Rubio manteve críticas ao Judiciário brasileiro, e o jornal O Estado de S.Paulo revelou que empresários – inclusive os irmãos Batista, do grupo JBS – buscam canais de diálogo com Washington. A publicação cita contatos prévios de autoridades brasileiras com o representante comercial Jamieson Green e o assessor presidencial Richard Grenell, sem confirmação de impacto direto no discurso de Trump.
Com discursos antagônicos, mas interesses econômicos convergentes, Brasília e Washington ensaiam novo capítulo em uma relação que alterna pragmatismo e choque ideológico.
Com informações de Gazeta do Povo