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Conafer é investigada por receber R$ 708 milhões em descontos do INSS e liderar esquema tripartite, diz PF

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Brasília – Segunda maior beneficiária de descontos associativos na folha do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) entrou no centro da nova etapa da Operação Sem Desconto. A Polícia Federal (PF) calcula que a entidade movimentou mais de R$ 708 milhões entre 2021 e 2025, ficando atrás apenas da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que somou aproximadamente R$ 3,6 bilhões.

Expansão considerada atípica

Dados da Controladoria-Geral da União (CGU) mostram crescimento brusco da arrecadação da Conafer. O valor recebido saltou de cerca de R$ 400 mil, em 2019, para R$ 202 milhões, em 2023. Entre março e junho de 2020, no auge da pandemia, a entidade obteve 95.818 novos associados — média superior a 630 por dia. A justificativa de atendimento remoto não convenceu o INSS.

Instalada em 2011, a confederação passou a atuar em todo o país e ganhou espaço em fóruns internacionais, como a COP28 e o Fórum Econômico Mundial. Paralelamente, aumentaram as queixas de segurados: mais de 70 mil denúncias foram registradas na CGU sobre descontos não autorizados.

Fichas de mortos e menores

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS identificou cadastros fraudulentos que sustentaram o avanço da Conafer. Entre 2021 e 2024, 3.366 pessoas já falecidas teriam sido “ressuscitadas” para permitir a cobrança de mensalidades. A CPMI também encontrou registros em nome de menores de idade, assinaturas divergentes e datas incompatíveis com o período alegado de atendimento remoto.

Em depoimento à CPMI, em 29 de setembro, o presidente da confederação, Carlos Roberto Ferreira Lopes, negou irregularidades. Acusado de falso testemunho, ele chegou a ser preso em flagrante durante a sessão e foi liberado após pagamento de fiança de R$ 5 mil.

Estrutura em três núcleos

Relatórios da PF apontam um esquema dividido em núcleos operacional, financeiro e político:

Núcleo operacional – responsável por inserir autorizações fictícias, manipular o sistema do INSS e produzir fichas fraudulentas.

Núcleo financeiro – encarregado de lavar os valores obtidos. Empresas de fachada, como pizzarias, imobiliárias e escritórios de advocacia, teriam sido usadas para movimentar recursos; o operador financeiro seria Cícero Marcelino de Souza Santos.

Núcleo político – formado por agentes públicos e parlamentares que garantiriam proteção institucional. Entre os nomes citados está o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), relacionado ao codinome “Herói E” em planilha de pagamentos mensais. Ele nega envolvimento.

Pagamentos a ex-presidente do INSS

A PF também investiga o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, suspeito de receber R$ 250 mil mensais entre junho de 2023 e setembro de 2024 para facilitar inserções e homologações no sistema. A defesa do ex-gestor nega qualquer recebimento de propina.

Presidente ausente diz não estar foragido

Com mandado de prisão ainda pendente, Carlos Roberto Ferreira Lopes não foi localizado pela PF na fase mais recente da operação. Em nota, a Conafer declarou que o dirigente “está em viagem em área de difícil acesso” e se apresentará às autoridades assim que possível. A entidade sustenta que colabora com todas as investigações e repudia o “tratamento sensacionalista” dado ao caso.

As apurações seguem sob responsabilidade conjunta da PF, CGU, Receita Federal e CPMI do INSS.

Com informações de Gazeta do Povo