18/10/2025 – A ausência de diretrizes sólidas para investimentos estrangeiros abriu caminho para que grupos chineses assumam participação dominante em áreas estratégicas da economia brasileira, como energia, logística portuária, agronegócio e mineração.
Investimento dispara e Brasil se torna prioridade
Levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostra que os aportes de Pequim no País cresceram 113% em 2024, alcançando US$ 4,18 bilhões. O resultado coloca o Brasil como o terceiro maior destino global de capital chinês, atrás apenas do Reino Unido e da Hungria, num momento em que o fluxo mundial de investimento direto recuou 11%, segundo a Unctad.
A guinada ocorre em meio a tensões comerciais e geopolíticas. Entre 2023 e 2024, as inversões chinesas caíram 11% nos Estados Unidos e 41% na Austrália, enquanto foram reforçadas no Brasil. Analistas do Bradesco atribuem a mudança à prioridade dada por Pequim à agenda doméstica e ao ambiente externo mais hostil.
Especialistas alertam para dependência
Para o professor Alexandre Uehara, da ESPM, o País corre o risco de repetir o modelo de exportação de matérias-primas sem agregar valor. Carlos Honorato, da FIA Business School, compara a estratégia chinesa ao jogo Go: ocupar posições pouco a pouco até controlar o tabuleiro.
Energia concentra quase metade dos recursos
De 2007 a 2024, 45% do valor aplicado por empresas chinesas ficou no setor elétrico, com compras de hidrelétricas e linhas de transmissão. No ano passado, essa área absorveu 34% dos novos aportes e liderou em número de projetos (22, o maior registro da série). Mesmo fontes tradicionais seguem atraindo interesse: só a extração de petróleo recebeu cerca de US$ 1 bilhão em 2024, ou 25% do total anual.
Portos e ferrovias garantem escoamento de commodities
No Porto de Santos (SP), a estatal Cofco International venceu a concessão do terminal STS-11 e promete investir US$ 285 milhões na primeira fase. A companhia ainda comprou 23 locomotivas e 979 vagões para transportar até 4 milhões de toneladas por ano até o porto.
Outros ativos logísticos também mudaram de controle: a China Merchants Port assumiu o Terminal de Contêineres de Paranaguá (PR) e firmou acordo para adquirir um terminal de petróleo no Porto do Açu (RJ). Já a Cosco e a CCCC manifestaram interesse no leilão do Tecon 10, em Santos, que exige R$ 6,45 bilhões em investimentos.
Agronegócio: da semente ao embarque
A Cofco figura entre as maiores tradings de grãos do País e, após reorganização interna, repassou a holandesa Nidera para a Syngenta, também controlada pela ChemChina. Outra transação transferiu o banco genético brasileiro de milho da Dow AgroSciences para as chinesas Yuan LongPing High-Tech Agriculture e CITIC Agri Fund Management.
Em Washington, o senador republicano Tom Cotton incluiu no orçamento dos serviços de inteligência dos EUA um pedido de investigação sobre a expansão chinesa no campo brasileiro, citando possíveis impactos na segurança alimentar global.
Minérios críticos entram na mira
A China Nonferrous Metal Mining Group comprou a mineradora Taboca, no Amazonas, produtora de estanho, nióbio e tântalo. A BYD, que fabrica veículos elétricos na Bahia, adquiriu direitos sobre duas áreas ricas em lítio no Vale do Jequitinhonha (MG) em 2023. Somente em 2024, a mineração respondeu por 13% dos recursos (US$ 556 milhões).
Presença se espalha pelo território
Projetos chineses chegaram a 14 estados em 2024, seis a mais que no ano anterior. O Sudeste concentra 54% dos empreendimentos registrados entre 2007 e 2024, mas sua fatia no valor aplicado caiu para 48% no último ano. No mesmo período, o Sul recebeu 17% dos investimentos, o Nordeste 14% e o Norte 7%.
Falta de filtro nacional
Especialistas destacam que outros países estabeleceram barreiras para proteger setores sensíveis. A Austrália adota revisão obrigatória de aportes estrangeiros e a União Europeia criou, em 2019, um mecanismo que permite vetar negócios que coloquem em risco a segurança ou a ordem pública. O Brasil, entretanto, ainda não definiu parâmetros similares.
Enquanto o debate não avança, empresas chinesas continuam a ampliar participação em ativos considerados estratégicos, tornando mais complexa qualquer tentativa futura de limitar essa presença.
Com informações de Gazeta do Povo