Brasília — A relação construída desde 2003 entre os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e o chavismo transformou-se em um dos capítulos mais duradouros da diplomacia brasileira e deixou reflexos na liderança regional do país e em suas contas públicas. De declarações que minimizaram denúncias de autoritarismo na Venezuela a investimentos bilionários que resultaram em dívidas não pagas, a condescendência brasileira atravessou quatro mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e o governo Dilma Rousseff.
Postura reiterada de tolerância
Em janeiro de 2026, Lula classificou a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos como “afronta gravíssima à soberania”, reeditando o alinhamento que começou no primeiro mandato petista. Ainda em 2005, ao lado de Hugo Chávez em Brasília, o presidente brasileiro afirmou que a Venezuela vivia “excesso de democracia”, num contraponto às críticas internacionais sobre o avanço autoritário no país vizinho.
Campanha chavista teve auxílio de petistas
Telegrama da Embaixada venezuelana no Brasil, divulgado pela imprensa, relata reunião de fevereiro de 2011 em que Lula se comprometeu a ajudar Chávez a vencer a eleição de 2012. Na ocasião, o ex-presidente disse que uma derrota do aliado seria “pior que a queda do Muro de Berlim”. O marqueteiro João Santana, responsável por campanhas do PT, foi acionado para a comunicação chavista e, segundo depoimento prestado à Operação Lava Jato em 2017 por Mônica Moura, recebeu cerca de US$ 10 milhões pelos serviços.
Manobra para incluir Caracas no Mercosul
Relato posterior do ex-presidente uruguaio José Mujica aponta que o governo Dilma articulou, em 2011, aumento expressivo do valor pago ao Paraguai pela energia de Itaipu para reduzir a resistência paraguaia à entrada da Venezuela no Mercosul. A iniciativa driblou a exigência democrática do bloco e garantiu adesão plena a Caracas.
Vídeo de apoio e reabilitação diplomática
Após a morte de Chávez, Lula gravou vídeo em 2013 pedindo votos para Nicolás Maduro. Já em maio de 2023, no terceiro mandato, o chefe do Planalto recebeu o venezuelano com honras de Estado e sugeriu que ele “construísse sua própria narrativa” diante das críticas sobre violações de direitos humanos.
Ambiguidade diante das eleições de 2024
As eleições venezuelanas de 2024, marcadas por denúncias de fraude, tiveram condenação de Argentina, Paraguai e Chile. O Brasil não reconheceu formalmente o resultado, mas enviou representante à posse de Maduro, gesto que, segundo analistas, equivale a reconhecimento diplomático. O assessor especial Celso Amorim conduziu as tratativas, enquanto o chanceler Mauro Vieira manteve discurso de “não interferência”.
Calote supera R$ 10 bilhões
Dados oficiais mostram que a Venezuela acumula dívida superior a R$ 10 bilhões com o Brasil, resultado de financiamentos a exportações brasileiras concedidos entre 2007 e 2015 e garantidos pelo Fundo de Garantia à Exportação (FGE). Com a inadimplência venezuelana desde 2018, o Tesouro Nacional cobre as parcelas não pagas. O Itamaraty atribui a persistência do calote a sanções internacionais que dificultam transferências bancárias.
Refinaria Abreu e Lima: símbolo do fracasso
Anunciada em 2003 como parceria entre Petrobras (60%) e PDVSA (40%), a Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), teve orçamento inicial de até US$ 2,5 bilhões e acabou custando cerca de US$ 18 bilhões. A estatal venezuelana não cumpriu o aporte prometido, e a Petrobras arcou sozinha com a obra, alvo de investigações da Operação Lava Jato por superfaturamento e propina. Em 2025, a Petrobras assinou novos contratos de R$ 4,9 bilhões para ampliar a unidade.
Críticas à oposição venezuelana
Em março de 2024, Lula aconselhou a líder opositora María Corina Machado a “não ficar chorando” após ser impedida de disputar a eleição. A declaração foi comparada por ele ao próprio impedimento eleitoral em 2018 no Brasil e gerou reação imediata da política venezuelana. Semanas depois, o presidente brasileiro classificou como “grave” o veto à candidatura, mas manteve defesa do diálogo com Caracas.
Ao longo de mais de duas décadas, a convergência ideológica com o chavismo tornou-se marca da política externa do PT, trazendo ganhos políticos para Caracas e deixando ao Brasil custos diplomáticos e financeiros que persistem.
Com informações de Gazeta do Povo