Uma multidão de cerca de 150 nacionalistas hindus agrediu o pastor Bipin Bihari Naik, 35 anos, na tarde de 4 de janeiro, na vila de Parjang, distrito de Dhenkanal, estado de Odisha, leste da Índia. Sob a vista de policiais, o líder cristão foi amarrado, levado pelas ruas, obrigado a andar descalço sobre galhos espinhosos e a entoar cânticos hindus.
Segundo relatos colhidos pelo Morning Star News, o grupo era composto por moradores, integrantes do Bajrang Dal (braço juvenil do Vishwa Hindu Parishad) e autodenominados “protetores de vacas” (Gau Rakshaks). Os agressores acusavam o pastor de promover conversões de hindus ao cristianismo – ato que não configura crime no país.
Invasão ao culto domiciliar
Cerca de 15 minutos após o início do culto doméstico, aproximadamente 40 pessoas invadiram a residência de Naik. O pastor foi retirado à força, agredido a pauladas e teve o celular destruído quando tentava entregá-lo à esposa, Bandana Naik, para pedir socorro.
Bandana e as filhas do casal, de 13 e 10 anos, conseguiram fugir por uma porta dos fundos e buscaram ajuda na delegacia local. Lá, ouviram que só haveria intervenção após o registro de uma queixa por escrito. O pedido foi protocolado, mas a polícia levou mais de duas horas para agir.
Humilhação pública
Enquanto isso, a multidão arrastou o pastor até um templo dedicado a Hanuman, amarrou-o a um poste, espalhou pó de açafrão em seu rosto e tentou fazê-lo beber água misturada com esterco de vaca. Quando exigiram o grito de guerra “Jai Shri Ram”, Naik respondeu “Jai Yeshu” e foi novamente espancado. Em seguida, colocaram uma guirlanda de sandálias em seu pescoço e o levaram pelas ruas sobre ramos cheios de espinhos.
A sequência de tapas e golpes de bambu resultou em inchaço no rosto, ferimentos nas mãos e perda parcial de audição. O pastor relata ter recebido cerca de 40 pauladas.
Resgate tardio e pressão policial
Somente depois de percorrer toda a vila os agressores voltaram ao templo, onde policiais finalmente chegaram e retiraram Naik. No entanto, segundo o pastor, os agentes se recusaram a registrar o boletim de ocorrência e o obrigaram a assinar documentos, inclusive folhas em branco, declarando que tudo não passara de um “mal-entendido”.
Naik não foi levado imediatamente ao hospital. Líderes cristãos conduziram a família a 25 km de distância, onde o pastor recebeu curativos, injeções para dor e antibióticos. Dias depois, passou a apresentar secreção no ouvido e deve realizar exames de imagem.
Queixa formal e mudança de endereço
Apenas em 13 de janeiro a Polícia de Parjang registrou o First Information Report (FIR) nº 0041, citando Nigamananda Dalbehera e outras 20 pessoas por lesão corporal, restrição ilegal, reunião ilícita, tumulto, porte de arma letal e intimidação.
Temendo novos ataques, o pastor, a esposa e as duas filhas mudaram-se para um local não divulgado, a 71 km de Parjang, e afirmam que não pretendem retornar. O proprietário do imóvel onde viviam foi advertido pelos agressores para não recebê-los novamente.
Naik diz ter sido alvo de agressões anteriores, mas nunca com tamanha violência. “Sobrevivi por milagre”, declarou.
Com informações de Folha Gospel