A comunidade cristã em Mianmar relata aumento de riscos à segurança e à liberdade religiosa com a aproximação das eleições nacionais convocadas pela junta militar para ocorrer em três etapas, entre 28 de dezembro de 2025 e 25 de janeiro de 2026.
Eleições em três fases
Conforme o calendário divulgado pelo regime, a fase 1 está marcada para 28 de dezembro de 2025 em 102 municípios; a fase 2, para 11 de janeiro de 2026 em 100 municípios; e a fase final, para 25 de janeiro de 2026 nas localidades restantes. A Comissão Eleitoral promete divulgar os vencedores em cada circunscrição no mesmo dia da votação e apresentar o resultado nacional depois de concluída a contagem geral.
Conflito e restrições
Desde o golpe de Estado de 2021, tentativas de votar no país fracassaram em meio a conflitos armados e resistência popular. Com as novas datas, parceiros locais da organização Portas Abertas relatam baixa conectividade, restrições de viagem e risco de recrutamento forçado que afetam inclusive pastores e jovens cristãos.
“Em muitas áreas de conflito, os cristãos não conseguem se reunir, e nossos jovens e até pastores não estão seguros, pois o recrutamento continua”, afirmou Win Tin (nome fictício), colaborador da entidade.
Pressão sobre o voto
Cidadãos deslocados internamente relatam ameaças para voto antecipado; quem se recusa pode perder o direito a abrigos mantidos pelas autoridades. Ao mesmo tempo, grupos armados como as Forças de Defesa do Povo incentivam o boicote, criando clima de medo de represálias vindas de qualquer lado.
Para os cristãos, além da limitação de mobilidade e do receio de violência, há temor de perda de recursos básicos nas regiões controladas pelos militares caso não participem da eleição.
Perseguição sistemática
Mianmar ocupa posição de destaque na Lista Mundial da Perseguição 2026. Igrejas sofrem dificuldades de registro, cristãos enfrentam barreiras em documentos de identidade e acesso a serviços essenciais, e há relatos de plano estatal para converter minorias religiosas ao budismo.
A escalada foi agravada por terremotos em março de 2025, que deixaram mais de 3.600 mortos e milhares de desabrigados, aprofundando a vulnerabilidade de seguidores de Jesus em regiões de minoria étnica.
Mulheres e homens afetados
Depois do golpe de 2021, militares passaram a perpetuar violência física e sexual contra mulheres cristãs de etnias como kachin e kayah, além de aumento do tráfico para a China. Cristãs rohingya continuam sujeitas a sequestro e conversão forçada.
Homens cristãos convivem com despejos, perda de emprego e trabalho forçado. A lei de conscrição de 2024 intensificou o risco de recrutamento obrigatório, com relatos de cristãos posicionados nas zonas mais perigosas do conflito.
Tentativas de apoio
Parceiros da Portas Abertas distribuem Bíblias, oferecem treinamento de preparação para a perseguição, suporte socioeconômico e ministério de presença. “A razão pela qual permanecemos resilientes em meio à perseguição é o treinamento que recebemos”, declarou o pastor Yang (nome fictício).
À medida que o processo eleitoral avança, líderes cristãos temem que a votação sirva para consolidar o poder da junta e intensificar a hostilidade contra minorias religiosas no país.
Com informações de Folha Gospel