A repressão do governo iraniano, aliada às tensões recentes com os Estados Unidos, mantém sob pressão a minoria cristã de um país com cerca de 93 milhões de habitantes, majoritariamente muçulmanos xiitas. Para iranianos de origem muçulmana que decidem abandonar o islamismo, a escolha pelo cristianismo pode resultar em longas penas de prisão e, em teoria, até pena de morte.
Darius — nome fictício para preservar a identidade — é um desses novos convertidos. Ex-muçulmano xiita devoto, o iraniano adotou o cristianismo ortodoxo, opção incomum entre convertidos, já que as igrejas ortodoxas no país são frequentadas quase exclusivamente por minorias étnicas historicamente cristãs. Como as autoridades vigiam esses templos, muçulmanos convertidos raramente são aceitos.
Sem acesso às igrejas ortodoxas locais, muitos convertidos optam por comunidades protestantes clandestinas ou deixam o país, geralmente rumo à Turquia. Segundo Darius, grupos secretos de culto são organizados em casas, enquanto parte dos fiéis prefere o exílio para praticar a fé com menos medo.
O iraniano afirma que, apesar do risco, tornou-se mais simples parecer “invisível” ao regime: “Poucos ao meu redor frequentam a mesquita ou recitam o Alcorão”, relata. Darius lê a Bíblia, participa de uma comunidade ortodoxa online moderada por uma iraniana e mantêm contato com outros convertidos pelas redes sociais.
A adesão ao islamismo vem caindo, diz ele, e as mesquitas estariam “quase vazias”, frequentadas sobretudo por idosos e simpatizantes do governo. Já o consumo de álcool, proibido por lei, cresce em popularidade.
Mesmo assim, a venda ou compra de Bíblias continua arriscada. Darius lembra ter adquirido um exemplar em farsi de uma vendedora ambulante em Teerã — episódio que considera raro. A mesma mulher oferecia também um livro sagrado do zoroastrismo, outra fé que registra aumento de adeptos no país.
Darius conta que seu interesse pelo cristianismo começou após visitar a Catedral de Vank, em Isfahan, e ouvir músicas de Johnny Cash com temática religiosa. Um sonho com ícones dos 12 apóstolos reforçou sua decisão. Hoje, ele planeja mudar-se para a Europa para ser batizado “sem medo” e construir “um futuro longe deste inferno”, como define sua realidade atual.
Relatos como o dele alimentam estimativas de que o Irã possua uma das comunidades cristãs que mais crescem no mundo. “O caminho verdadeiro nem sempre é o que queremos ou gostamos”, conclui.
Com informações de Folha Gospel