Em audiência realizada na quinta-feira, 20 de novembro, a Subcomissão para a África da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos ouviu especialistas e defensores de direitos humanos sobre formas de responder à crescente violência contra cristãos na Nigéria. A sessão ocorreu em meio a ameaças da administração norte-americana de cortar ajuda financeira, estimada em US$ 1 bilhão anuais, e até adotar medidas militares caso o governo nigeriano não proteja as comunidades religiosas.
Alerta contra intervenção unilateral
Oge Onubogu, diretora do Programa África do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), advertiu que qualquer ação militar norte-americana poderia agravar tensões religiosas, fortalecer extremistas e ampliar a insegurança no país. Para ela, Washington deve priorizar um “engajamento de longo prazo”, focado em reforçar instituições locais e enfrentar as causas da instabilidade, em vez de “respostas rápidas e reativas”.
Uso da classificação CPC
Nina Shea, diretora do Centro para a Liberdade Religiosa do Instituto Hudson, destacou que a inclusão da Nigéria na lista norte-americana de Países de Preocupação Particular (CPC) precisa ser transformada em pressão concreta contra as milícias de pastores fulani, responsáveis por grande parte dos ataques no Cinturão Médio.
Shea defendeu:
- Desarmar os fulanis que utilizam fuzis AK-47 e AK-49, proibidos pela legislação nigeriana;
- Destinar uma fatia da ajuda externa a sistemas de alerta, comunicação e autodefesa das aldeias cristãs;
- Aplicar sanções de visto e a Lei Magnitsky a quem financia ou protege os agressores, inclusive autoridades policiais e militares;
- Canalizar assistência humanitária por meio de igrejas e entidades locais que já atuam com sobreviventes.
Números da violência
Dados do Observatório da Liberdade Religiosa na África (ORFA) indicam que, entre outubro de 2019 e setembro de 2023, milícias fulani mataram quase 15 mil civis, superando os pouco mais de 3 mil mortos pelo Boko Haram e pelo Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP) no mesmo período.
O estudo aponta ainda que, dos 30.880 civis assassinados em quatro anos, 16.769 eram cristãos e 6.235 muçulmanos. Entre os sequestrados, 11.185 eram cristãos e 7.899 muçulmanos.
Visões divergentes sobre motivação dos ataques
Onubogu minimizou o caráter religioso dos crimes, atribuindo-os a conflitos por terra e falhas de governança. Segundo ela, em regiões onde o Islã é maioria, as vítimas também são, em grande parte, muçulmanas. Shea, por sua vez, sustenta que os ataques fulani configuram perseguição dirigida aos cristãos e podem ser contidos com vontade política.
Igreja denuncia impunidade
O bispo católico Wilfred C. Anagbe, da Diocese de Makurdi (estado de Benue), declarou que a situação se deteriorou mesmo após a designação CPC e classificou a Nigéria como “o lugar mais perigoso do mundo para ser cristão”. Para ele, a falta de resposta do governo federal alimenta a sensação de abandono e impunidade.
Posicionamento do Departamento de Estado
O embaixador Jonathan Pratt, chefe interino da pasta para Assuntos Africanos, disse que Washington elabora “incentivos e penalidades” para levar o governo do presidente Bola Tinubu a proteger comunidades cristãs. A estratégia inclui possíveis sanções, cooperação antiterrorismo e redirecionamento de recursos de assistência.
“Nossa meta é que o governo nigeriano adote medidas concretas de segurança, responsabilização e promoção da liberdade religiosa”, afirmou Pratt.
As discussões no Congresso prosseguirão nas próximas semanas, enquanto parlamentares avaliam quais instrumentos diplomáticos ou econômicos podem gerar resultados sem agravar a instabilidade no país africano.
Com informações de Folha Gospel