O arquipélago de Tuvalu, na Polinésia, começa a transferir parte de sua população para a Austrália após assinar, em 2025, o Falepili Union Treaty, que libera até 280 vistos anuais para habitantes do país insular. A medida responde ao avanço do nível do mar que, segundo a Nasa, já subiu 15 centímetros nos últimos 30 anos e segue aumentando cerca de 5 milímetros por ano.
Pequeno território sob risco
Com apenas 26 quilômetros quadrados e estimados 11 mil habitantes distribuídos por nove ilhas e atóis, Tuvalu fica entre a Austrália e o Havaí. A maior parte da população vive na ilha de Fongafale, no atol de Funafuti, onde estão concentrados serviços básicos.
Projeções indicam que, até 2050, grande parte das áreas habitáveis ficará abaixo da maré alta, inviabilizando agricultura, abastecimento de água doce — dependente da chuva — e infraestrutura. Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, ciclones mais frequentes e ressacas intensas, já são realidade desde a década de 1980.
Discurso que chamou atenção
Em 2021, o então primeiro-ministro Simon Kofe discursou por videoconferência na Conferência do Clima da ONU com as pernas submersas, alertando: “Estamos afundando”. A cena ganhou repercussão internacional e evidenciou a urgência da situação.
Falepili Union Treaty
O tratado firmado com a Austrália prevê sorteio anual de 280 vagas para migração. As inscrições ocorreram de 16 de junho a 18 de julho de 2025 e receberam mais de 5 mil candidatos — quase metade da população.
Por anos, o governo de Tuvalu resistiu à migração em massa. Propostas de realocação feitas por Fiji foram rejeitadas. Reportagem do jornal britânico The Guardian em 2019 mostrou que moradores desejavam permanecer na ilha, mas a aceleração dos impactos climáticos mudou o cenário.
Controvérsia e questões de soberania
O acordo não passou sem críticas. O ex-ministro Enele Sopoaga afirma que o tratado concede à Austrália influência sobre decisões de segurança nacional de Tuvalu, restringindo a autonomia local. Em 2019, o ex-primeiro-ministro australiano Kevin Rudd já havia sugerido residência permanente para habitantes de Tuvalu, Kiribati e Nauru em troca de acesso às Zonas Econômicas Exclusivas dessas nações, proposta que também gerou debate.

Imagem: Aboodi Vesakaran Unsplash via gazetadopovo.com.br
Planos de adaptação em andamento
Enquanto parte da população se prepara para migrar, Tuvalu investe em projetos de proteção costeira. A primeira fase do Projeto de Adaptação Costeira de Tuvalu (TCAP) ergueu barreiras e áreas elevadas. A fase II, iniciada em 2024, deverá proteger 800 metros de litoral e criar oito hectares de terra elevada até 2026.
A longo prazo, o governo planeja o Te Lafiga o Tuvalu, zona elevada de 3,6 km² com infraestrutura para abrigar toda a população além de 2100, garantindo abastecimento de água, segurança alimentar e energética.
Enquanto obras de contenção avançam, o Falepili Union Treaty oferece caminho alternativo para centenas de moradores que buscam segurança diante da ameaça de desaparecimento de seu território.
Com informações de Gazeta do Povo