Brasília — A detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro por tropas de elite dos Estados Unidos, no sábado, 3 de janeiro de 2026, em Caracas, criou um novo ponto de tensão entre Washington e Pequim e já provoca ajustes no mercado de petróleo, setor estratégico para a economia brasileira.
Reação imediata e rearranjo geopolítico
EUA e China, principais parceiros comerciais do Brasil, assumem posições opostas após a prisão do líder chavista, tradicional aliado de Pequim. Analistas ouvidos por instituições como XP, Genial, Janus Henderson e Economist Intelligence Unit (EIU) apontam que o episódio acelera a reorganização de cadeias produtivas num cenário já marcado pela guerra na Ucrânia, pela corrida por minerais raros e pela demanda crescente de energia destinada à inteligência artificial.
Reserva gigantesca sob nova direção
A Venezuela detém cerca de 300 bilhões de barris em reservas — a maior do planeta —, mas produz apenas 1,1 milhão de barris diários, menos de um terço do volume registrado antes de Hugo Chávez assumir o poder, em 1999. Com o retorno esperado de companhias americanas além da Chevron, a produção poderia dobrar para 2 milhões de barris por dia em dois anos e, no cenário mais otimista, chegar a 3 ou 4 milhões, segundo a Janus Henderson. A oferta extra tende a pressionar para baixo a cotação do Brent.
Pressão sobre Petrobras e concorrentes locais
Para Vitor Souza, da Genial Investimentos, preços menores afetam diretamente o caixa da Petrobras; petróleo a US$ 55 seria suficiente para acender alerta sobre a capacidade de pagamento da estatal. Empresas menores, como Brava e PetroRecôncavo, são vistas como ainda mais vulneráveis devido ao custo de extração e endividamento superiores à média do setor.
Ao mesmo tempo, campos degradados venezuelanos podem abrir oportunidade de aquisição a preços reduzidos, mas investidores aguardam definição das regras do provável novo governo em Caracas antes de ampliar exposição.
Infraestrutura deteriorada desafia expansão
Especialistas lembram que décadas de estatização, fuga de mão de obra qualificada e falta de manutenção deixaram a indústria petrolífera venezuelana em estado crítico. Gustavo Vasquez, da Argus, cita dutos saqueados, refinarias com pane recorrente — como a de Cardón, que sofreu novo apagão em 2025 — e gasodutos parados entre Venezuela e Colômbia.
Consequências para contas públicas brasileiras
O petróleo responde por 13% das exportações nacionais (US$ 41 bilhões entre janeiro e novembro de 2025). Uma queda de preço reduziria receitas e ampliaria a pressão sobre o déficit, em um país cujo orçamento fica no vermelho desde 2014, exceto entre 2021 e 2023. Juros futuros podem subir e encarecer o financiamento da dívida.
Mercado financeiro e câmbio
Se conflitos em Ucrânia ou Taiwan se intensificarem, investidores tendem a migrar para ativos em dólar, desvalorizando moedas emergentes como o real. O JP Morgan Private Bank estima maior volatilidade inflacionária global, limitando o espaço para cortes de juros pelos grandes bancos centrais.
Minérios críticos e energia limpa como trunfos
O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo e matriz elétrica majoritariamente renovável. Para o UBS, data centers de inteligência artificial exigem energia abundante e barata, vantagem estratégica do país. Entretanto, a atração de capital depende de estabilidade institucional e de regras claras para mineração e refino, setores hoje dominados pela China.
Repercussão política em Brasília
A proximidade histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Maduro já é explorada pela oposição. Postagens de 2023, quando Lula recebeu o venezuelano em Brasília, circulam nas redes sociais. Assessores do Planalto enfatizam a defesa da “soberania nacional” e rejeitam violência, mas analistas políticos veem desgaste entre eleitores de centro, decisivos para 2026.
Com a influência dos EUA fortalecida na América Latina depois da operação em Caracas, especialistas alertam que regimes que ignoram leis de mercado se mostram frágeis, exemplo usado por estrategistas da XP e da Genial para justificar a cautela dos investidores quanto a países considerados desorganizados.
Com informações de Gazeta do Povo