A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã impulsionou o barril de petróleo para a casa dos US$ 100 e abriu uma janela financeira e estratégica para a Rússia sustentar a ofensiva contra a Ucrânia. O efeito colateral do novo conflito no Oriente Médio ocorre enquanto Washington avalia afrouxar sanções energéticas impostas a Moscou.
Alívio temporário nas sanções
Na semana passada, o governo do presidente norte-americano Donald Trump concedeu às refinarias indianas uma isenção de 30 dias para importar petróleo russo, segundo a agência Reuters. Fontes diplomáticas indicam que a medida pode ser estendida a outros compradores caso a volatilidade dos preços persista.
Durante reunião com ministros, assessores e executivos, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou ser “fundamental” que as empresas de energia do país “aproveitem o momento atual”. Ele sugeriu ainda que a União Europeia poderá rever planos de reduzir a dependência do petróleo e gás russos.
Impacto direto no esforço de guerra
Especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, Eduardo Galvão explica que petróleo e gás representam fatia decisiva das receitas do orçamento russo. “Cada dólar adicional no barril melhora a capacidade de Moscou de sustentar o esforço militar na Ucrânia”, observa.
Apesar do impulso nos cofres, a economia russa segue pressionada. O Produto Interno Bruto avançou apenas 0,5% em 2025, o pior resultado desde o início da invasão, em 2022. Para 2026, o Fundo Monetário Internacional projeta crescimento modesto de 0,8%.
Desvio de atenção e de arsenais ocidentais
Analistas do think tank Globsec, Marcin Zaborowski e Tomáš Nagy, alertam que o foco dos Estados Unidos e da Europa no Oriente Médio reduz a disponibilidade de armas para Kiev. O estoque de mísseis Patriot, crucial para a defesa antiaérea ucraniana, já vinha encolhendo antes mesmo da operação norte-americana batizada de Epic Fury no Irã.
Na semana passada, Trump confirmou que empresas do setor de Defesa receberam ordens de emergência para acelerar a produção de armamentos destinados ao novo front. Enquanto isso, a Rússia intensifica ataques a infraestrutura ucraniana, calculando que a distração de Washington diminui a pressão sobre o Kremlin.
Ucrânia colabora contra Teerã
Em busca de manter o apoio dos EUA, o presidente Volodymyr Zelensky enviou drones interceptadores e um grupo de especialistas ao Oriente Médio para ajudar a neutralizar artefatos fabricados pelo Irã. A experiência foi acumulada em quatro anos de combate a drones Shahed no leste europeu.
Mesmo assim, Trump sinalizou disposição para negociar diretamente com Putin. Em telefonema recente, o republicano pediu ajuda do líder russo para encerrar o conflito entre Moscou e Kiev, enquanto o Kremlin apresentou “propostas” para um acordo rápido no Oriente Médio.
Risco para a parceria Rússia-Irã
Segundo Zaborowski e Nagy, um Irã enfraquecido poderia reduzir o envio de drones e tecnologias de mísseis balísticos à Rússia. Embora relevante, o possível abalo na cooperação militar não resolve de imediato a falta de munição e a atenção internacional desviada da Ucrânia.
Reservas estratégicas podem ser acionadas
Para conter a volatilidade do mercado de energia, a Agência Internacional de Energia deve recomendar aos países-membros a liberação de 400 milhões de barris de petróleo — a maior retirada de reservas da história. Após reunião nesta quarta-feira (11), os ministros de Energia do G7 manifestaram apoio “a todas as medidas necessárias” sugeridas pela agência.
O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, que presidiu o encontro, declarou que a iniciativa busca enviar um recado claro: caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado, as reservas estratégicas serão acionadas.
Com informações de Gazeta do Povo