Rio de Janeiro – A escala do navio-hospital chinês Silk Road Ark no Píer Mauá, entre 8 e 15 de janeiro de 2026, colocou o Brasil no centro da rivalidade naval entre China e Estados Unidos. A embarcação integra a Missão Harmony 2025, a mais longa já conduzida pela Marinha chinesa, com duração estimada de 220 dias e paradas na Oceania, Caribe e América Latina.
Soft power em alto-mar
Para especialistas, a operação é menos sobre atendimento médico e mais sobre demonstração de soft power. “Essas missões funcionam como um cavalo de Troia moderno; mapeiam portos e normalizam a presença da marinha chinesa no Atlântico Sul”, afirma Márcio Coimbra, CEO da consultoria Casa Política.
O cientista político Adriano Gianturco, do IBMEC, reforça: “Ajuda humanitária nunca é neutra; cria vínculos simbólicos e exibe capacidade logística, enviando recado claro a Washington”.
Suspeitas de inteligência
Cezar Roedel, doutor em Filosofia e estudioso de conflitos internacionais, lembra que a chegada ocorreu após manobras navais dos EUA no Caribe. “Seria ingênuo ver apenas uma missão médico-hospitalar. Grandes potências sempre coletam dados estratégicos”, diz.
Questionamentos no Brasil
A visita gerou dúvidas sobre possível atendimento de pacientes brasileiros por médicos estrangeiros sem registro local. O Conselho Regional de Medicina do Rio (CREMERJ) solicitou esclarecimentos, mas a Secretaria de Saúde fluminense e a Marinha do Brasil negaram qualquer procedimento a bordo.
Documentos enviados ao CREMERJ informam que não houve pedido de autorização, despacho ou processo administrativo relativo a serviços médicos. A entrada do Silk Road Ark foi aprovada pelo governo federal em 13 de novembro e publicada no Diário Oficial da União em 18 de novembro.
Imunidade e precedentes
Pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, navios de Estado têm imunidade jurisdicional, o que limita vistorias sem consentimento do país de bandeira. O Brasil costuma autorizar escalas de embarcações militares estrangeiras; em 2023, contudo, expulsou um navio de pesquisa alemão que operava sem permissão em área sensível.
Contexto da disputa naval
A presença chinesa ocorre enquanto Pequim consolida a maior frota naval do mundo e amplia sua produção de navios mercantes. Nos Estados Unidos, estaleiros acionaram o governo com base na Lei de Comércio de 1974, acusando a China de subsídios e dumping. O ex-presidente Donald Trump defende a criação de uma nova classe de encouraçados para recuperar a supremacia naval norte-americana.
Na avaliação de Coimbra, cada atracação sem reação firme “testa a elasticidade da influência americana no Atlântico Sul”. Embora não represente ameaça direta ao território brasileiro, o episódio reforça que o porto do Rio serviu como palco simbólico de uma disputa global.
Com informações de Gazeta do Povo