Buenos Aires – O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou na sexta-feira (3) que uma operação de desinformação comandada por agentes russos desembolsou US$ 283 mil para publicar ao menos 250 textos em mais de 20 portais digitais do país com o objetivo de minar seu governo.
Segundo documentos confidenciais vazados a consórcios internacionais de jornalismo, a iniciativa faz parte de uma “guerra híbrida” destinada a influenciar eleições, criar crises diplomáticas artificiais e desacreditar a política externa pró-Ucrânia adotada pelo novo governo argentino.
Ligação com antigo grupo mercenário
Os relatórios apontam que a estrutura responsável pelos pagamentos, batizada de “La Compañía”, seria uma continuidade direta do Grupo Wagner, organização paramilitar russa chefiada por Yevgeny Prigozhin até sua morte em 2023.
Identidades forjadas e uso de IA
Para dar aparência de legitimidade ao material patrocinado, a rede criou “jornalistas fantasmas”. O caso mais notório é o de “Gabriel Di Taranto”, suposto especialista em comunicação política que assinou 20 textos em veículos como C5N e Ámbito Financiero. Investigações mostraram que Taranto não existe: seu diploma jamais foi emitido e a foto de perfil foi gerada por software de inteligência artificial.
Reação oficial
Milei classificou a manobra como “uma das maiores gravidades institucionais da história” e prometeu identificar “todos os atores diretos e indiretos” envolvidos. A investigação corre sob responsabilidade da inteligência argentina e já foi encaminhada ao Poder Judiciário. O porta-voz presidencial, Manuel Adorni, declarou que o governo irá “até as últimas consequências”.
A embaixada da Rússia em Buenos Aires rebateu, chamando as denúncias de “história inflada artificialmente” e alegando falta de provas contra o Kremlin.
Rastro pela América Latina
Os mesmos arquivos indicam que “La Compañía” também atuou na Bolívia para fortalecer o presidente Luis Arce e na Venezuela para sustentar o discurso de Nicolás Maduro após as eleições de 2024. Um estudo da Digital News Association, divulgado em 31 de março, acrescenta que Moscou treinou mais de mil influenciadores e jornalistas para espalhar desinformação na região.
Embora o Brasil não figure nos documentos referentes à Argentina, investigações de meios europeus apontaram, em fevereiro, que o grupo brasileiro Nova Resistência integra a célula russa de desinformação “Storm-1516”.
As autoridades argentinas sustentam que o caso divulgado agora representa apenas “a ponta do iceberg”.
Com informações de Gazeta do Povo