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Inscrições medievais ocultas na Sala da Última Ceia revelam rota de peregrinos de toda a Europa

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Uma investigação internacional concluiu, em 2025, a leitura de cerca de 40 inscrições quase invisíveis nas paredes do Cenáculo, construído no século XII sobre o Monte Sião, em Jerusalém. O local é venerado pela tradição cristã como a Sala da Última Ceia, onde Jesus teria compartilhado a refeição final com os apóstolos.

Quem participou da pesquisa

O trabalho foi coordenado pela Academia Austríaca de Ciências (ÖAW) em parceria com a Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA). Para decifrar o material, a equipe recorreu à fotografia multiespectral combinada à técnica de Imagem de Transformação de Reflectância (RTI), método que registra a superfície com diferentes ângulos de iluminação e destaca marcas despercebidas a olho nu.

Brasões, símbolos e assinaturas

Entre os grafites identificados aparecem inscrições textuais, símbolos religiosos e cinco brasões pertencentes a famílias nobres europeias. Um dos achados mais destacados é o escudo ligado à Estíria, região da atual Áustria, atribuído ao nobre Tristram von Teuffenbach, integrante de uma peregrinação liderada por Frederick III, arquiduque da Áustria e futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, em 1436.

Outra inscrição, em armênio, registra a expressão “Natal de 1300” e pode corroborar a passagem do rei Het’um II da Armênia por Jerusalém após a vitória de seu exército na batalha de Wādī al-Khaznadār, na Síria, em 1299.

Diversidade de origens

Foram reconhecidos registros deixados por visitantes oriundos da Armênia, Síria, Sérvia e de regiões que hoje pertencem à Alemanha e à República Tcheca. O maior conjunto, contudo, pertence a cristãos de língua árabe provenientes do Oriente Médio. Entre eles, destaca-se um fragmento que menciona “ya al-Ḥalabīya”, forma que indica autoria feminina vinda de Aleppo, na atual Síria — raro testemunho material de peregrinação feminina na Idade Média.

Objetos da tradição cristã

Os pesquisadores também encontraram desenhos de um cálice, um prato e um pão redondo perfurado no centro, elementos associados ao relato da Última Ceia e semelhantes ao pão tradicional de Jerusalém.

Valor histórico

Segundo o historiador Ilya Berkovich, integrante da equipe, o conjunto oferece “uma visão única sobre a origem geográfica dos peregrinos”, indicando circulação muito mais ampla do que aquela habitualmente documentada por fontes ocidentais. Para os autores do estudo, os grafites constituem patrimônio histórico que preserva, nas próprias paredes do Cenáculo, vestígios diretos da devoção de viajantes medievais.

Com informações de Gazeta do Povo