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Guerra no Irã pressiona estoques de mísseis dos EUA e fortalece posição chinesa, apontam analistas

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A ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã, que completou um mês no último fim de semana, já provoca reflexos que vão além do campo de batalha. O bloqueio quase total do Estreito de Ormuz pelo governo iraniano elevou os preços globais de petróleo e gás — antes do conflito, cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo passavam pela rota.

Entretanto, a restrição logística também afeta cadeias de suprimentos estratégicas para Washington. Estudo recente do Soufan Center conclui que a interrupção do tráfego no Golfo Pérsico compromete o fornecimento de hélio, enxofre liquefeito e minerais críticos, além de destruir ativos energéticos na região, o que pode enfraquecer os EUA na disputa tecnológica e militar com China e Rússia.

Dependência de minerais processados na China

O coronel da reserva brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais, lembra que cada míssil Tomahawk — peça central do arsenal norte-americano — utiliza ao menos 18 minerais críticos. Entre eles estão tântalo, prata, cobre, bismuto, fósforo, titânio, molibdênio, cobalto, tungstênio e grafite, vários processados majoritariamente na China.

“Sem esses materiais não há precisão, navegabilidade nem resistência ao calor”, afirmou Coutinho. Segundo o militar, Pequim domina o refino de terras raras e metais essenciais, conta com matriz energética mais eletrificada e pode ganhar espaço político no Golfo ao oferecer financiamentos e reconstrução após a guerra. “A capacidade de Washington sustentar operações de alta intensidade depende de cadeias controladas pela China”, observou.

Tomahawks em ritmo de consumo superior à produção

Reportagem do The Washington Post revelou que, nas quatro primeiras semanas do conflito, os EUA já lançaram mais de 850 Tomahawks. Dados do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) indicam que contratos do Pentágono preveem produção máxima anual de 2.330 unidades, mas as Forças Armadas costumam adquirir apenas cerca de 90 por ano.

A pesquisadora Kelly Grieco, do Stimson Center, estima que o arsenal americano reúna aproximadamente 3,1 mil Tomahawks. “Reconhece-se a insuficiência de capacidade de ataque de longo alcance; estamos tentando ampliar estoques, mas seguimos consumindo-os”, declarou à CBS News.

Repercussões para a Ucrânia

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse à BBC temer que a guerra no Oriente Médio cause falta de armamentos para Kiev, quatro anos após o início da invasão russa. Ele lembrou que os Estados Unidos produzem entre 60 e 65 mísseis de diversos tipos por mês, enquanto 803 foram disparados apenas no primeiro dia da nova frente de combate — cenário que poderia gerar déficit de sistemas Patriot “no futuro próximo”.

Armas podem ser redirecionadas, admite secretário americano

Em Paris, na sexta-feira (27), o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reconheceu a possibilidade de remessas destinadas à Ucrânia serem usadas no Oriente Médio. “Se tivermos necessidade militar, nossas forças terão prioridade”, disse, enfatizando que os equipamentos repassados a Kiev fazem parte de vendas financiadas pela Otan.

Indústria de defesa sob pressão

Coutinho destaca que o volume de Tomahawks empregado em um mês de guerra equivale a vários anos de produção contratada. Mesmo com uma ordem governamental de expansão, a indústria não conseguiria resposta imediata, pois depende de linhas de montagem especializadas, mão de obra técnica, fornecedores certificados de minerais não controlados pela China e ciclos de manufatura que não podem ser encurtados.

O Pentágono nega preocupação pública. “As Forças Armadas dos EUA têm tudo o que precisam para qualquer missão onde e quando o presidente decidir”, afirmou o porta-voz Sean Parnell, acusando parte da imprensa de tentar retratar “as forças mais poderosas do mundo como fracas”.

Com informações de Gazeta do Povo