O Tratado de Redução de Armas Nucleares Estratégicas (New START) deixou de vigorar nesta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, sem que Washington e Moscou chegassem a um novo entendimento. A paralisação do último pacto de controle de armas entre Estados Unidos e Rússia reacendeu o receio de uma disputa armamentista que, desta vez, pode envolver três grandes potências: EUA, Rússia e China.
O que previa o acordo
Em vigor desde 2010 e renovado por cinco anos em fevereiro de 2021, o New START limitava cada lado a 1.550 ogivas nucleares e 700 sistemas de lançamento baseados em terra, mar ou ar. Moscou chegou a propor uma extensão de um ano, mas o presidente norte-americano, Donald Trump, condicionou qualquer negociação à inclusão de Pequim, exigência rechaçada pelo governo chinês.
Participação desigual nos arsenais globais
EUA e Rússia concentram 87% das armas nucleares conhecidas. A China, embora detenha um estoque menor, está ampliando rapidamente suas capacidades e, segundo projeções norte-americanas, pode alcançar 1.500 ogivas em uma década.
Sinais de possível prorrogação
Apesar do fim formal do tratado, três fontes consultadas pelo portal Axios afirmaram que delegações dos dois países discutem, nos bastidores, uma nova prorrogação.
Dados mostram trajetórias divergentes
Levantamento do Council on Strategic Risks indica que, nos últimos 13 anos, a Rússia expandiu em média 22% seus sistemas com capacidade nuclear, incluindo aumento de 20% no número de submarinos armados com mísseis balísticos (SLBMs). A China elevou em 635% o total de mísseis balísticos de alcance intermediário e acresceu 88% à sua força de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs). No mesmo período, os EUA reduziram em 17% seus SLBMs e cortaram em 11% seus ICBMs.
Rússia suspende inspeções e abandona pactos
Desde a assinatura do New START em 2010, Moscou violou ou deixou vários acordos de controle de armas. Em 2022, suspendeu inspeções previstas pelo tratado; em 2023, retirou-se formalmente do pacto e cancelou a ratificação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares. No ano passado, Vladimir Putin ofereceu manter os limites quantitativos do New START por mais 12 meses, desde que os EUA não avançassem no sistema antimíssil “Domo Dourado” — proposta que excluía inspeções.
Limitações orçamentárias e foco em defesa
Analistas do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) observam que Washington e Moscou mantêm paridade estratégica e enfrentam restrições financeiras. A Rússia fechou 2025 com déficit de 2,6% do PIB e queda nas receitas de petróleo e gás devido à guerra na Ucrânia e às sanções. Os EUA, por sua vez, priorizam a construção do “Domo Dourado”, projeto de defesa que pode custar trilhões de dólares e deslocar recursos de novos armamentos ofensivos.
Avanço silencioso da China
Investigações das organizações Open Nuclear Network (ONN) e Vertic, divulgadas pelo Washington Post, revelam que Pequim reformula uma rede de instalações para produzir componentes nucleares, alimentando preocupações em Washington. O governo norte-americano tenta trazer a China para as conversas de controle de armas.
Teoria dos três escorpiões
Especialistas alertam que a entrada de uma terceira potência altera o equilíbrio que vigorou na Guerra Fria. Em 2022, Andrew F. Krepinevich Jr. descreveu na revista Foreign Affairs a “teoria dos três escorpiões”: com três arsenais relevantes, cada país precisa se resguardar de dois adversários, elevando o risco de erros de cálculo e escaladas durante crises.
O futuro do controle nuclear permanece indefinido, enquanto Estados Unidos, Rússia e China avaliam custos, prioridades e estratégias em um cenário sem o New START.
Com informações de Gazeta do Povo