Havana – O governo de Cuba afirmou nesta terça-feira (24) que os Estados Unidos vêm exercendo “forte pressão e chantagem” sobre países da América Latina e do Caribe para que rescindam acordos que mantêm brigadas de profissionais de saúde cubanos no exterior.
Segundo o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, a ofensiva norte-americana tem como objetivo estrangular uma das principais fontes de divisas da ilha – a exportação de serviços médicos – em meio ao agravamento da crise energética no país, marcado por apagões diários.
Onda de cancelamentos
A série de rompimentos começou no fim de janeiro, quando o recém-empossado presidente de Honduras, Nasry Asfura, aliado de Donald Trump, determinou a abertura de uma investigação sobre supostas irregularidades no convênio. Em seguida, o programa foi encerrado e os profissionais cubanos deixaram o território hondurenho.
Na sequência, Guatemala, Jamaica e Guiana também suspenderam as parcerias, classificadas por Washington como “trabalho forçado”. De acordo com Havana, Antígua e Barbuda, Bahamas, Granada e Trinidad e Tobago cancelaram ou revisam os termos de seus contratos, totalizando oito nações que já abandonaram ou reavaliam as missões.
Argumentos de Havana
Rodríguez declarou que a iniciativa americana “pune cidades e comunidades desfavorecidas que recebem assistência cubana há décadas, em troca de promessas de recursos que sabemos que nunca chegarão”. O chanceler sustenta que Estados Unidos ameaçam sobretaxar países que forneçam petróleo a Cuba, acentuando as dificuldades econômicas internas.
Pressão diplomática e judicial
Em agosto do ano passado, o então secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou a revogação de vistos de funcionários públicos cubanos e de outras nacionalidades envolvidos no envio de médicos ao exterior, entre eles ex-integrantes do Ministério da Saúde do Brasil no governo Dilma Rousseff (2011-2016).
Pouco depois, o Consulado dos EUA em São Paulo cancelou os vistos da esposa e da filha do atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, devido à participação dele no programa brasileiro Mais Médicos. Padilha obteve visto temporário, com restrições de circulação, para comparecer à Assembleia Geral da ONU em setembro.
Desde 2018 tramita em uma corte federal dos EUA uma ação movida por quatro médicos cubanos contra a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Eles alegam terem trabalhado no Brasil com documentos retidos, vigilância constante e retenção de 80% a 90% do pagamento realizado pelo governo brasileiro. Segundo a ONG Fundação para os Direitos Humanos em Cuba, o Brasil pagou US$ 2,58 bilhões à Opas entre 2013 e 2018 pela atuação de mais de 10 mil profissionais cubanos.
Dados do Ministério da Saúde brasileiro apontam que, em 2018, médicos de Cuba representavam cerca de 10% dos 26 mil profissionais do Mais Médicos, embora fossem maioria no início do programa.
Até o momento, Washington não comentou as recentes acusações feitas por Havana.
Com informações de Gazeta do Povo