Caracas — Planejado na década de 1950 para ser um shopping center futurista com 300 lojas e acesso direto de automóveis por rampas em espiral, o edifício El Helicoide tornou-se, quatro décadas depois, a principal prisão política da Venezuela. Desde os anos 1980, o prédio abriga a sede do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) e, segundo ex-detentos, converteu-se em centro sistemático de tortura sob os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
Da vitrine capitalista ao calabouço estatal
O projeto nasceu durante o governo do general Marcos Pérez Jiménez, mas foi interrompido com a queda do militar, em 1958. Abandonado e ocupado por sem-teto, acabou requisitado pelo Estado na década de 1980 e adaptado para uso policial. As vitrines viraram celas; salas comerciais, salas de interrogatório.
Prisão lotada após captura de Maduro
Com a detenção de Nicolás Maduro na madrugada de sábado, 3 de janeiro de 2026, permanece a dúvida sobre o destino dos presos e da própria estrutura. Autoridades ainda não definiram se El Helicoide voltará a sua função original de centro comercial ou se será transformado em memorial das violações de direitos humanos cometidas durante a revolução bolivariana.
Detentos ilustres
Entre os que passaram ou ainda estão nas celas improvisadas estão:
- María Oropeza, integrante da campanha da opositora María Corina Machado, sequestrada em agosto de 2025 e mantida incomunicável por meses;
- Alfredo Díaz, ex-governador de Nova Esparta, morto sob custódia em dezembro de 2025 após suposta negativa de atendimento médico;
- Rocío San Miguel, advogada e ativista de direitos humanos, presa em 2024;
- Rosmit Mantilla, primeiro deputado assumidamente gay do país, detido em 2014;
- Roberto Marrero, ex-chefe de gabinete de Juan Guaidó, preso em 2019.
Condições descritas como “inferno”
Relatórios da jornalista Sebastiana Barraez e um documentário da BBC detalham ambientes sem ventilação, saneamento ou luz natural. Áreas batizadas pelos agentes como “O Aquário” e “Guantánamo” — este último um depósito de 12 m² onde até 50 pessoas eram confinadas — concentram as piores denúncias.
Ex-presos relatam choques elétricos em regiões sensíveis, sufocamento com sacos plásticos, espancamentos, simulações de execução e suspensão pelos pulsos. Em 2019, antes da visita da comissária da ONU Michelle Bachelet, setores teriam sido limpos para mascarar as condições reais.
Enquanto as autoridades discutem o futuro do prédio, El Helicoide permanece como uma espiral de concreto no coração de Caracas, carregando a marca dos abusos cometidos durante décadas e o destino incerto dos que ainda ocupam suas celas.
Com informações de Gazeta do Povo