Havana – O governo de Cuba anunciou, na quinta-feira (2), a soltura antecipada de pouco mais de 2 mil presos comuns, no que descreveu como o maior indulto concedido em mais de dez anos. A medida, divulgada em pleno período da Semana Santa, não contemplou nenhum dos mais de 1,2 mil presos políticos que, segundo organizações de direitos humanos, continuam detidos na ilha.
Manobra ocorre após alívio parcial de sanções dos EUA
O anúncio veio um dia depois de Washington flexibilizar o bloqueio de combustíveis imposto há quase três meses, permitindo que um navio russo atracasse no país carregado de petróleo. Na véspera, o presidente Miguel Díaz-Canel havia confirmado negociações com os Estados Unidos para enfrentar a crise energética cubana.
De acordo com o The New York Times, interlocutores norte-americanos indicaram que Díaz-Canel “deveria deixar o poder” como parte de uma possível solução para a crise. Nesse contexto, o indulto foi interpretado por observadores internacionais como um gesto calculado para amenizar a pressão externa sem alterar a estrutura de controle do regime.
Lista de beneficiados segue em sigilo
As autoridades não divulgaram os nomes dos detentos libertados nem os critérios usados para selecioná-los. O Ministério do Interior apenas informou que ficaram excluídos todos os condenados por “crimes contra a autoridade” – tipificação frequentemente aplicada a opositores.
Horas após o início das solturas, na sexta-feira (3), a ONG Cubalex declarou não ter identificado nenhum prisioneiro de consciência entre os beneficiados. Já Javier Larrondo, presidente da espanhola Prisoners Defenders, afirmou que o número de detidos por razões políticas segue em patamar recorde.
“Contabilizamos dezenas de novos presos políticos só em março, e agora o regime tenta se apresentar como benevolente”, disse Larrondo.
Uso político da data religiosa
Críticos apontam contradição no fato de o regime, fundado no ateísmo marxista e historicamente repressivo contra a Igreja, recorrer à Páscoa para anunciar o indulto. O Vaticano, que atua como mediador entre Havana e Washington, costuma participar de negociações que incluem libertações pontuais de detentos.
Parada anti-EUA no mesmo dia
Enquanto a libertação era divulgada, Díaz-Canel participou, também na quinta-feira, da “Parada Juvenil Anti-imperialista Sobre Rodas”, em Havana. Manifestantes em bicicletas e patins exibiam imagens de Che Guevara e entoavam slogans contra os Estados Unidos, ilustrando o duplo discurso do governo: disposição para diálogo externo e manutenção da retórica revolucionária internamente.
Com redes elétricas instáveis, oferta de alimentos escassa e salário médio próximo de US$ 20 mensais, a população cubana segue enfrentando dificuldades cotidianas, enquanto permanece sem perspectiva de libertação para líderes oposicionistas ainda encarcerados.
Com informações de Gazeta do Povo