Horas depois de Estados Unidos e Israel bombardearem alvos no Irã, no sábado (28), Moscou e Pequim divulgaram notas de repúdio, exigiram cessar-fogo imediato e defenderam a retomada de negociações diplomáticas. Apesar da dura retórica, nenhuma das duas potências sinalizou disposição para oferecer apoio militar direto a Teerã, evidenciando os limites de sua parceria com o regime iraniano.
Condenação sem ameaça
No Conselho de Segurança da ONU, a delegação russa classificou os bombardeios como “atos de agressão”. Já o chanceler chinês, Wang Yi, considerou “inaceitável” que Washington lançasse a ofensiva durante tratativas diplomáticas e criticou o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano. As manifestações ficaram no plano diplomático, sem alusão a retaliações ou envio de tropas.
Parcerias estratégicas, não militares
Rússia, China e Irã firmaram em janeiro um pacto trilateral para ampliar cooperação em energia, comércio e defesa. O documento, porém, não inclui cláusula de assistência mútua em caso de ataque externo. Diferente da Otan, os três países mantêm apenas acordos de colaboração política, econômica e tecnológica, sem obrigação de defesa coletiva.
Interesses de Moscou e Pequim
Teerã é peça importante para o Kremlin desde 2022, quando começou a fornecer centenas de drones utilizados pela Rússia na guerra contra a Ucrânia. Já para a China, o valor do Irã é majoritariamente energético: Pequim compra mais de 80% do petróleo exportado pelos iranianos, quase sempre com desconto em relação ao preço internacional, garantindo caixa a um país sob sanções ocidentais.
A instabilidade também ameaça corredores comerciais financiados pela Iniciativa Cinturão e Rota, que inclui projetos em nações do Golfo atualmente sob ataque iraniano. Uma eventual queda do regime em Teerã traria perdas estratégicas distintas para Rússia e China, mas analistas acreditam que nenhum dos dois governos pretenda se envolver militarmente.
Motivos para ficar de fora
A professora Ludmila Culpi, da PUC-PR, avalia ser improvável que Moscou ou Pequim assumam o custo de um confronto direto com os EUA. Segundo Evan Feigenbaum, vice-presidente do Carnegie Endowment for International Peace, o Oriente Médio não está entre as prioridades centrais da China, cujo foco militar continua no Leste Asiático e na questão de Taiwan.
Para a Rússia, abrir nova frente contra Washington enquanto combate na Ucrânia seria arriscado. Análise do Chatham House, assinada por Grégoire Roos, aponta que o Kremlin tende a preservar a imagem de parceiro de Teerã sem se deixar arrastar para outro conflito de alta intensidade.
Impacto do petróleo
No curto prazo, a crise pode até favorecer Moscou: a tensão eleva o preço internacional do petróleo, principal fonte de receitas russas para financiar a guerra na Ucrânia. A analista Ellen Wald, citada pela CNBC, afirma que Vladimir Putin “deve estar radiante” com a valorização da commodity.
Mesmo sob sanções ocidentais, a Rússia mantém exportações para países como China, Brasil e Índia, muitas vezes com desconto. No início do ano, o ex-presidente americano Donald Trump apoiou projeto de lei para impor tarifas de até 500% a nações que continuem comprando energia russa, medida que pode atingir esses parceiros.
Com informações de Gazeta do Povo