O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, afirmou nesta terça-feira, 3 de março de 2026, que o Irã mantém o mais alto patamar de enriquecimento de urânio já registrado em um Estado que não detém armas nucleares. A declaração foi concedida ao jornal argentino La Nación.
“Nenhum país sem armas nucleares enriquece urânio como o Irã. É brincar com fogo”, disse o diplomata, ao comentar a crescente tensão que envolve Estados Unidos, Israel e o regime iraniano.
Situação de “pré-guerra”
Grossi ressaltou que a ambiguidade do programa de Teerã causa desconfiança constante na comunidade internacional. “Um programa nuclear ambíguo cria uma situação de pré-guerra”, afirmou, acrescentando que Washington, Tel Aviv e outros governos não aceitarão que o Irã obtenha a bomba.
Acesso restrito após bombardeios
A AIEA, segundo ele, não conseguiu retomar plenamente as inspeções no país desde a “Guerra dos 12 Dias”, em junho do ano passado, quando instalações nucleares iranianas foram alvo de ataques dos EUA e de Israel. Apesar de contatos frequentes com autoridades de Teerã, entre elas o chanceler Abbas Araqchi, o acesso da agência permanece limitado.
Tentativas de negociação fracassadas
Grossi relatou ter acompanhado as negociações mediadas por Omã entre Washington e Teerã, conduzidas no Oriente Médio e na Europa, que procuravam restringir tanto o programa nuclear quanto o de mísseis iranianos. As conversas avançaram, mas divergências técnicas sobre quanto urânio poderia ser enriquecido e como seriam feitas as verificações impediram um acordo.
Instalações atingidas e estoque de urânio
Imagens de satélite analisadas pela AIEA indicam que a ofensiva militar em curso de EUA e Israel danificou importantes complexos, incluindo Natanz — onde dois novos pontos de acesso foram bombardeados — e a área de Isfahan, cujo grau de destruição ainda está sob avaliação. Mesmo assim, estima-se que o Irã mantenha cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, proporção considerada próxima à necessária para fabricar uma arma nuclear.
Risco de escalada regional
Embora reconheça o potencial bélico iraniano, Grossi defende que a solução definitiva não virá pelo uso da força. Ele considera indispensável retomar as negociações assim que cessarem as hostilidades, a fim de criar um mecanismo de controle que reduza tensões no Oriente Médio. O diplomata também advertiu que os contra-ataques iranianos a países que abrigam bases americanas aumentam o risco de uma escalada internacional.
A AIEA, frisou Grossi, permanece disposta a oferecer garantias técnicas e a retomar o diálogo se houver condições políticas.
Com informações de Gazeta do Povo