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Brasil vira trunfo estratégico para a Europa no avanço do acordo UE-Mercosul

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Brasília – Sob pressão de guerras no Leste Europeu e da crescente influência chinesa, a União Europeia acelerou, na sexta-feira (9), a aprovação preliminar do acordo comercial com o Mercosul, que deve ser assinado ainda nesta semana, no Paraguai, pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O Brasil desponta como o principal parceiro capaz de garantir segurança de suprimentos e diversificação geopolítica para o bloco de 720 milhões de consumidores.

Europa busca previsibilidade em meio a choques globais

Para Bruxelas, o pacto deixou de ser apenas um instrumento de redução tarifária. “Trata-se de hedging geopolítico: diminuir a dependência de fornecedores instáveis”, afirma José Carlos de Souza Filho, professor da FIA Business School. A avaliação é compartilhada por João Alfredo Lopes Nyegray, da PUC-PR, que vê no Brasil rara combinação de escala agroindustrial e base manufatureira diversificada.

Resistências internas e estratégia de “fatiamento”

O pragmatismo de Alemanha e Espanha esbarra no protecionismo agrário de França e Polônia. Para contornar bloqueios, a Comissão Europeia dividiu o tratado em duas partes. As regras comerciais (tarifas, cotas e bens) dependem apenas de maioria qualificada no Conselho e do aval do Parlamento Europeu. Temas como investimentos e compras governamentais precisarão passar pelos 27 parlamentos nacionais.

Impacto direto sobre a economia brasileira

A aprovação abre caminho para reduzir tarifas e ampliar cotas sem a demora de trâmites legislativos europeus. O bloco já mantinha, em 2023, estoque de US$ 321,4 bilhões em investimentos no país, segundo o Banco Central. O acordo fixa compromissos de longo prazo, amplia transparência regulatória e sinaliza disposição do Brasil em integrar cadeias globais complexas.

Agronegócio é o grande beneficiado

Cerca de 99% das exportações agrícolas do Mercosul ganharão algum grau de liberalização. Café solúvel, sucos de laranja, frutas frescas e óleos vegetais passam a entrar sem tarifa; carne bovina terá cota de 99 mil toneladas com imposto reduzido, e o etanol industrial terá tarifa zero. “O acesso preferencial estimula a integração das empresas brasileiras às cadeias globais de valor”, observa Rafael Cervone, presidente do Ciesp.

Exigências ambientais viram barreira

Governos como o francês condicionam apoio ao cumprimento de regras ambientais rígidas, restringindo produtos com defensivos proibidos na UE. Para o consultor José Luiz Mendes, da StoneX, só capturará valor quem adotar rastreabilidade e controle ambiental elevado.

Indústria vê oportunidades e riscos

O setor manufatureiro encara o acordo como chance de retomar espaço no mercado europeu, mas cobra períodos de adaptação. “É essencial garantir instrumentos de apoio à competitividade”, diz Flávio Roscoe, presidente da Fiemg. Queijos, lácteos, vinhos e outros produtos europeus tendem a pressionar a produção nacional, enquanto o Brasil continuará importando máquinas, químicos e farmacêuticos — itens que representaram 98,8% das compras brasileiras da UE em 2025 (US$ 49,7 bilhões).

Para setores sensíveis, como o automotivo, o tratado prevê prazos mais longos de abertura, permitindo ajustes na cadeia produtiva. A meta, segundo especialistas, é integrar a indústria brasileira a processos de maior sofisticação tecnológica sem sacrificar empregos qualificados.

O texto final do acordo ainda precisa ser ratificado, mas a sinalização política desta semana reforça o Brasil como peça central na nova estratégia externa europeia.

Com informações de Gazeta do Povo