Teerã – O bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos ao Irã completou 30 dias nesta quarta-feira (13) e já atinge em cheio a principal fonte de receita do regime, o petróleo. Coordenada pelo Comando Central das Forças Armadas americanas (Centcom) a mando do presidente Donald Trump, a operação tem impedido navios-tanque de entrar ou sair de portos iranianos, aprofundando a crise econômica no país persa.
Navios desviados e petroleiros parados
De acordo com balanço divulgado pelo Centcom, as forças norte-americanas redirecionaram 67 embarcações comerciais com destino ao Irã e inabilitaram outras quatro desde o início do cerco. Apenas 15 navios carregados com ajuda humanitária receberam autorização para seguir viagem.
Em 8 de maio, o comando militar informou que mais de 70 navios-tanque foram barrados na área de bloqueio. A capacidade conjunta dessas embarcações ultrapassa 166 milhões de barris de petróleo, carga avaliada em mais de US$ 13 bilhões (R$ 64,7 bilhões).
Em uma das ações mais recentes, um caça F/A-18 Super Hornet decolou do porta-aviões USS George H.W. Bush e atingiu dois petroleiros iranianos que tentavam furar o bloqueio, usando munição de precisão.
Exportações despencam
Levantamento da consultoria de inteligência de mercado Kpler mostra queda brusca nos embarques: entre 14 e 23 de abril, o Irã exportou cerca de 567 mil barris diários, contra média de 1,85 milhão em março, antes do cerco. A empresa não registrou nenhum navio-tanque iraniano cruzando com sucesso a zona patrulhada pelos EUA entre o Golfo de Omã e o Mar Arábico.
China perde principal fornecedor
Antes da operação, a China comprava mais de 90% do petróleo iraniano, segundo o think tank Foundation for Defense of Democracies (FDD). Com o bloqueio, Teerã estuda rotas alternativas, como o envio de petróleo por ferrovia até as cidades chinesas de Yiwu e Xi’an, via Cazaquistão e Turcomenistão. Especialistas, porém, afirmam que a capacidade ferroviária não substitui, a curto prazo, os petroleiros.
Estoques cheios e produção em queda
Com carregamentos retidos, os estoques terrestres do Irã alcançaram 49 milhões de barris, aponta a Kpler. O espaço disponível para armazenamento deve acabar em no máximo 22 dias de exportação típica. A consultoria estima queda da produção de 2,75 milhões para entre 1,2 milhão e 1,3 milhão de barris diários até o fim de maio, caso o bloqueio persista.
Danos econômicos crescentes
O Fundo Monetário Internacional (FMI) já projetava retração de 6,1% no PIB iraniano este ano, com inflação anual de 68,9%. A Oxford Economics calcula que o cerco pode cortar 70% das receitas de exportação do país. A Kpler fala em perdas de US$ 200 milhões a US$ 250 milhões por dia; o FDD eleva o prejuízo combinado para cerca de US$ 435 milhões diários.
O rial iraniano afundou para 1,9 milhão por dólar no fim de abril, impulsionando a alta dos preços ao consumidor. Levantamento da Associated Press em supermercados de Teerã apontou aumento de 45% no frango e cordeiro, 31% no arroz e 60% nos ovos desde fevereiro. Para conter novos protestos – que ganharam força entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 – o governo mantém severas restrições à internet, estimadas em US$ 50 milhões diários em perdas econômicas, segundo o FDD.
Negociações travadas
Apesar do impacto, Teerã rejeita as condições de Washington para encerrar o conflito. A proposta americana, com 14 pontos, inclui suspensão de todo enriquecimento de urânio por 12 anos, entrega do estoque enriquecido a 60%, reabertura do Estreito de Ormuz e inspeções reforçadas pela ONU, em troca de alívio gradual de sanções. A contraproposta iraniana exige fim imediato do bloqueio, retirada da proibição de venda de petróleo e compensação por danos de guerra.
Trump classificou o documento iraniano como “lixo” na segunda-feira (11). O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou à emissora CBS que a opção militar continua “sobre a mesa” caso o diálogo fracasse.
Pequim na equação
Em visita a Pequim, Trump afirmou que o presidente chinês, Xi Jinping, prometeu não fornecer equipamentos militares ao Irã e manifestou interesse na reabertura do Estreito de Ormuz, embora queira manter a compra de petróleo iraniano.
O bloqueio naval segue em vigor enquanto Washington e Teerã trocam propostas, sustentando a escalada econômica que pressiona o regime dos aiatolás.
Com informações de Gazeta do Povo