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Trump pressiona China a quadruplicar compra de soja dos EUA e acirra disputa com Brasil

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu em 10 de agosto que a China quadruplicasse “rapidamente” a aquisição de soja norte-americana, medida que aprofunda a rivalidade com o Brasil, hoje líder no abastecimento do mercado chinês.

Maior consumidor mundial

A China responde por 61,1% de todas as importações globais de soja. Em 2024, o país comprou 105,03 milhões de toneladas da oleaginosa, desembolsando US$ 52,8 bilhões. Desse total, 74,6 milhões de toneladas (71,1%) saíram do Brasil e 22,1 milhões (22%) partiram dos Estados Unidos. Argentina e Uruguai aparecem na sequência, com 3,9% e 1,9% de participação, respectivamente.

Tarifas e trégua comercial

Quatro dias antes do apelo de Trump, entrou em vigor nos EUA um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. Já no relacionamento com Pequim, Washington e a capital chinesa haviam acertado, em 12 de maio, a redução temporária de tarifas por 90 dias: as alíquotas norte-americanas sobre bens chineses caíram de 145% para 30%, enquanto as chinesas sobre mercadorias dos EUA recuaram de 125% para 10%.

Em 11 de agosto, as duas potências prorrogaram a trégua por mais 90 dias, até 12 de novembro, abrindo espaço para incluir a soja nas discussões.

Impacto sobre o Brasil

Segundo o pesquisador Alberto Pfeifer, do Insper Agro Global e da USP, os Estados Unidos não dispõem de oferta suficiente para multiplicar por quatro seus embarques no curto prazo, mas a pressão de Trump indica que o grão pode virar moeda de troca política. Uma saída ventilada seria a criação de cota livre de tarifas para soja norte-americana, o que reduziria a dependência chinesa do Brasil.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que 73,4% da soja exportada pelo Brasil em 2024 tiveram como destino a China. A oleaginosa representa 9% de toda a receita externa brasileira.

Reação em Brasília

O assessor especial da Presidência, Celso Amorim, classificou o movimento de Washington como “quase um estado de guerra” contra o Brasil. Na véspera, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping conversaram por telefone e reafirmaram o alinhamento estratégico bilateral, embora não tenham mencionado as tratativas sino-americanas.

Como o Brasil assumiu a dianteira

Os EUA foram o principal fornecedor de soja à China até 2012. A partir de 2013, o Brasil ultrapassou o rival e consolidou a liderança em 2018, quando tarifas chinesas sobre o grão norte-americano, impostas em retaliação a medidas de Trump, elevaram a fatia brasileira para 75,1%. Naquele ano, os EUA recuaram a 18,9%.

Trump pressiona China a quadruplicar compra de soja dos EUA e acirra disputa com Brasil - Imagem do artigo original

Imagem: criada utilizando Dall-E via gazetadopovo.com.br

Em janeiro de 2020, o acordo comercial Fase Um obrigava Pequim a comprar US$ 40 bilhões anuais de soja dos EUA por dois anos, totalizando US$ 80 bilhões. Apenas 73% da meta foi cumprida até 2022, em razão de preços mais competitivos e da qualidade do produto brasileiro.

Cenário atual de compras

Em 2025, importadores chineses já reservaram cerca de 8 milhões de toneladas da América do Sul para setembro e 4 milhões de toneladas para outubro, metade da necessidade mensal, segundo a Reuters. No mesmo período de 2024, haviam sido reservadas 7 milhões de toneladas de soja dos EUA.

Negociadores ouvidos pela agência afirmam que a extensão da trégua tarifária não deve impulsionar novos contratos com os Estados Unidos, pois a tarifa chinesa sobre a soja norte-americana segue em 23%. Sem esse encargo, a soja dos EUA para embarque em outubro estaria cerca de US$ 40 por tonelada mais barata que a brasileira.

As próximas rodadas de negociação entre Washington e Pequim definirão se a ofensiva de Trump conseguirá reverter a vantagem brasileira no maior mercado consumidor de soja do planeta.

Com informações de Gazeta do Povo