Brasília, 9 de janeiro de 2026 – O Tribunal de Contas da União (TCU) provocou forte reação do mercado financeiro e de especialistas ao determinar, de forma inédita, uma inspeção no Banco Central (BC) sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pela autoridade monetária em 18 de novembro de 2025. Após críticas e questionamentos sobre competência legal, o ministro relator Jhonatan de Jesus anulou o despacho na quinta-feira (8).
Liquidação motivada por irregularidades graves
A intervenção do BC ocorreu depois da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investigou emissão de títulos falsos e outros crimes financeiros ligados à instituição controlada por Daniel Vorcaro, preso quando tentava deixar o país. A liquidação também coincidiu com a recusa do BC à proposta de compra do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB), em setembro, por falta de garantias de viabilidade econômico-financeira.
Ofensiva institucional e suspeita de conflito de interesses
O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou sigilo absoluto em inquérito que apura as mesmas irregularidades. Uma contratação de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, reforçou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse.
Paralelamente, a Polícia Federal investiga a contratação de influenciadores digitais para atacar a decisão técnica do BC nas redes sociais. Para o professor da FGV-SP Carlos Ari Sundfeld, a investida do TCU “é atitude de político, não de técnico” e extrapola as atribuições da corte de contas.
Risco à estabilidade regulatória
A economista Elena Landau considera que o TCU não tem respaldo para revisar um ato que não envolve recurso público. “A urgência dada ao caso, em pleno recesso, fugiu de qualquer padrão”, afirma. Sundfeld acrescenta que interferências desse tipo podem corroer a credibilidade construída pelo BC ao longo de 60 anos e desencadear crise no sistema financeiro.
Histórico de ampliação de poder
Especialistas apontam que a corte de contas amplia suas competências desde a década de 1990, influenciada por sucessivos questionamentos empresariais e políticos. Segundo Sundfeld, o modelo em que “a maioria é formada por políticos profissionais” favorece pressões sobre decisões de agências reguladoras.
Nomeação na CVM amplia tensão
Enquanto o TCU recuava, outra frente de debate ganhou força: a indicação de Otto Lobo para presidir a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Servidor de carreira, Lobo já respondia interinamente pela autarquia e participou de decisões consideradas lenientes sobre o próprio Banco Master. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sinalizou que pretende adiar a sabatina para esclarecer a origem política da escolha, contestada também pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
O episódio envolvendo Banco Master, TCU, BC e CVM evidenciou um cenário em que diferentes órgãos de controle disputam espaço e levantou dúvidas sobre a autonomia de instituições responsáveis pela estabilidade econômica do país.
Com informações de Gazeta do Povo