A colheita brasileira de café prevista para 2026 deverá alcançar 66,2 milhões de sacas beneficiadas, número jamais registrado no país, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O volume supera em 3,2 milhões de sacas o recorde anterior, obtido em 2020, e representa aumento de 17,1% em relação ao ciclo de 2025.
Apesar do avanço expressivo na oferta, analistas não esperam alívio imediato para o bolso do consumidor. O economista Felippe Serigati, do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), explica que os estoques globais permanecem baixos após duas temporadas de produção restrita e ainda demandam tempo para reposição. “Os valores podem ceder um pouco, mas continuarão elevados”, afirma.
Estoques em queda e demanda firme
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que as reservas mundiais de café diminuíram de 31,9 milhões para 20,1 milhões de sacas de 60 kg entre 2021 e 2025, retração de 36,9%. No mesmo período, a procura manteve trajetória ascendente, impulsionada pelo consumo asiático e pela popularidade dos cafés especiais.
No Brasil, a cultura sentiu os efeitos de fortes estiagens em 2021-2022, quando o país registrou a menor safra da série histórica. Em 2024, a falta de chuvas voltou a elevar custos de manejo e controle de pragas. Fora do território nacional, Vietnã, Colômbia e Indonésia também sofreram quebras importantes devido a condições climáticas adversas, reduzindo ainda mais a disponibilidade internacional de grãos.
Efeito lento da expansão da oferta
O café tem ciclo produtivo longo: novos cafezais levam de três a cinco anos para atingir plena capacidade. Por isso, mesmo uma safra recorde não normaliza imediatamente o equilíbrio entre oferta e demanda. Serigati avalia que seriam necessárias pelo menos duas colheitas robustas consecutivas para que as cotações regressem aos patamares observados em 2023 e 2024.
Inflação do café supera 200% em seis anos
Levantamento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) revela que, entre janeiro de 2024 e junho de 2025, o café moído acumulou alta de 99,48%, enquanto o solúvel subiu 36,56%. No mesmo intervalo, a inflação geral foi de 9,66%. Considerando o período de janeiro de 2020 a janeiro de 2026, o preço do produto nas prateleiras disparou 219,6%, avanço 179,9 pontos percentuais acima da inflação global de 39,7% registrada pelo IBGE.
Segundo estudo da Jacobs Douwe Egberts, o café é a segunda bebida mais consumida no país, atrás apenas da água, reforçando o peso desse aumento no orçamento das famílias brasileiras.
Com informações de Gazeta do Povo