O número de companhias brasileiras em processo de recuperação judicial atingiu 5,6 mil ao fim de 2025, o maior patamar já registrado e 24,3 % superior ao verificado no encerramento de 2024. O dado integra levantamento da RGF publicado pelo jornal Valor Econômico nesta quinta-feira (5).
Somente em 2025, 1,6 mil empresas recorreram à Justiça para tentar reestruturar dívidas, enquanto 561 deixaram o programa no mesmo período. O ritmo acelerou no quarto trimestre, quando 510 novos pedidos foram protocolados — 7,5 % a mais que no trimestre anterior, estabelecendo novo recorde trimestral.
Juros altos e crédito restrito
Especialistas apontam a taxa básica de juros, mantida em 15 % há cinco reuniões consecutivas do Comitê de Política Monetária (Copom), como principal fator de pressão sobre o caixa das empresas. A oferta de crédito permanece limitada desde o escândalo da Americanas em 2023 e tende a ficar ainda mais restrita após o rombo bilionário do Banco Master, que afetou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Endividamento disparou
As 510 empresas que ingressaram com pedido entre outubro e dezembro declararam passivos somados de R$ 40 bilhões, mais que o dobro dos R$ 16 bilhões registrados no trimestre anterior. Quase metade desse montante é atribuída à petroquímica Unigel, que entrou em recuperação em outubro com dívidas de R$ 19 bilhões. Ambipar, Bombril e Intercement também figuram na lista.
Participação ainda pequena, mas desigual
Apesar do avanço, as empresas em recuperação representam 2,13 para cada mil negócios ativos no país. O Índice RGF mostra concentração maior na agropecuária (13,53), na indústria (6,74) e na infraestrutura (4,11). Comércio (1,81) e serviços (1,02) ficaram abaixo da média nacional.
“O plano é aprovado com premissas muitas vezes conservadoras ou prevendo queda nos juros, mas esses fatores precisam ser revisados continuamente. A aprovação não zera as dívidas; o passivo negociado continua”, explicou Roberta Gonzaga, consultora da RGF.
Agronegócio lidera pedidos
No recorte setorial, o agronegócio responde pela maior expansão. Ao fim de 2025, 493 empresas rurais estavam em recuperação judicial, alta de 67 % em um ano. O cultivo de soja concentrou 217 casos, mais que o dobro de 2024, afetado por custos elevados, preços menores da commodity, juros altos e crédito escasso.
Mato Grosso do Sul registrou a maior variação proporcional, com avanço de 84 % e 68 empresas insolventes, impulsionado pela soja e pela pecuária. Para o presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon, “a crise tende a ser ainda mais severa em 2026”, diante de dívidas crescentes e taxas bancárias entre 15 % e 20 %.
Perspectiva para 2026
Analistas ouvidos pelo levantamento alertam que flutuações cambiais e a proximidade das eleições elevam a incerteza, reforçando a expectativa de novos recordes de recuperações judiciais neste ano.
Com informações de Gazeta do Povo