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Empresas devem bater novo recorde de recuperações judiciais e falências em 2026

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Brasília – O setor produtivo brasileiro caminha para estabelecer um novo pico de recuperações judiciais e decretações de falência em 2026, mesmo com a previsão de recuo da Selic para 12,25% ao ano, projeta o Boletim Focus do Banco Central. Juros ainda elevados, oferta de crédito restrita e incerteza eleitoral formam o tripé que pressiona o caixa das empresas e amplia o risco de insolvência.

Juros altos corroem o caixa corporativo

Com a Selic atualmente em 15% – maior nível em 19 anos – o custo médio dos empréstimos com recursos livres às companhias chegou a 1,9% ao mês em outubro, acima dos 1,62% verificados no mesmo mês de 2024, segundo o BC. “Teremos novos recordes de inadimplência, recuperações judiciais e falências devido à taxa de juros restritiva”, afirma Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria.

Para Roberta Gonzaga, da RGF Associados, não há expectativa de corte substancial dos juros antes de 2028, o que antecipa um movimento de pedidos de proteção judicial. Patrícia Krause, economista da seguradora de crédito Coface, frisa que a alta dos custos financeiros compromete investimentos e pagamentos de empresas e consumidores.

Seca de crédito e eleição travam decisões

Além dos juros, a oferta de capital está limitada desde o “choque Americanas”, revelado em janeiro de 2023. O prazo médio das concessões de crédito corporativo foi de 25,2 dias em outubro, o pior para o mês desde 2020. A Febraban explica que a desaceleração só não é maior graças a linhas com garantia governamental.

A aproximação das eleições presidenciais agrava a cautela. “Independentemente do resultado, o período pré-eleitoral traz insegurança aos bancos”, diz Gonzaga. A Coface também aponta o risco político como fator de pressão sobre investimentos e política fiscal.

Agronegócio vira campeão de pedidos

Tradicional motor do PIB, o agronegócio lidera hoje os índices de recuperação judicial: 12,6 em cada mil empresas ou produtores rurais estavam sob proteção judicial no 3.º trimestre, aponta o Monitor RGF. O percentual é quase o dobro da indústria (6,49) e seis vezes a média nacional (2,04).

Quebras de safra por eventos climáticos, queda de preços de commodities e endividamento elevado explicam a virada. A chegada de novos produtores entre 2020 e 2022, muitas vezes com gestão amadora, ampliou a vulnerabilidade.

Micro e pequenas sofrem efeito dominó

Negócios de menor porte respondem por cerca de 80% dos pedidos de recuperação, revela a RGF. Sem reservas, essas empresas ficam expostas à combinação de juros altos e consumo fraco. “Quando uma delas fecha, arrasta fornecedores e credores”, alerta o advogado Anderson Leite, do Martorelli Advogados.

Recuperação que vira falência

A taxa de processos que migram de recuperação para falência saltou de 29% no segundo trimestre para 37% no terceiro. O diagnóstico tardio e a ausência de ativos para oferecer como garantia impedem a captação de “dinheiro novo”, etapa crucial para a reestruturação, explica Gonzaga.

Reforma tributária adiciona pressão

A transição da reforma tributária, que começa em janeiro de 2026, eleva a complexidade operacional. “Teremos custos de adaptação durante a convivência de dois sistemas”, observa Rubens Souza, sócio-tributarista da W Faria Advogados. A necessidade de revisar contratos, sistemas e logística pesa sobre fluxos de caixa já comprometidos.

Em meio a juros elevados, crédito escasso e mudanças regulatórias, empresas e credores reforçam a necessidade de respostas rápidas para evitar que a recuperação judicial se torne pré-falência.

Com informações de Gazeta do Povo