Responsável por cerca de 30% do Produto Interno Bruto brasileiro, o agronegócio entra em 2026 com produção física prevista para novos recordes, mas sob forte pressão de rentabilidade. Instituições financeiras como Itaú BBA e Rabobank apontam que o setor precisará de gestão de risco e eficiência milimétrica para enfrentar juros elevados, custos maiores e cenário macroeconômico mais frágil.
Custo de capital inviabiliza expansão
A taxa Selic deve permanecer próxima de 15% no primeiro trimestre, recuando para 12% no fim do ano, segundo projeções de mercado. O crédito caro já se reflete em recuperações judiciais: 25 em cada mil produtores de soja e 9 em cada mil criadores de gado de corte estavam em reestruturação no terceiro trimestre de 2025, de acordo com a RGF Consultores.
O quadro é agravado pela incerteza fiscal às vésperas das eleições de 2026, que mantém o real volátil. Eventual desvalorização ajuda a receita em reais das exportações, mas encarece insumos importados e pressiona a inflação.
Insumos seguem pesando no bolso
Fertilizantes permanecem caros, apesar do investimento recorde em tecnologia. Com preços do fosfato monoamônico (MAP) elevados, produtores migraram para opções menos concentradas, como o superfosfato simples (SSP) e o super triplo (TSP). Pela primeira vez, a importação de sulfato de amônio (SAM) superou a de MAP.
O Rabobank calcula alta média de 7,4% no custo de adubação em 2026, chegando a 10,7% na cana-de-açúcar. No mercado de defensivos, o avanço projetado é de 1,5% em volume, mantendo o faturamento acima de US$ 20 bilhões.
Grãos: volume recorde, lucro apertado
Soja – A safra 2025/26 deve alcançar 177 a 178 milhões de toneladas, com aumento de área de apenas 2%. Estoques globais em reconstrução pelo quarto ano seguido limitam cotações em Chicago, e as margens dependerão de prêmios nos portos e do câmbio.
Milho – A produção prevista é de 137 milhões de toneladas, 5 milhões a menos que no ciclo anterior, apesar de área 2,2% maior. A demanda doméstica de etanol de milho deve saltar 18% em 2025 (23 milhões t) e chegar a 28 milhões t em 2026, criando um piso de preços no Centro-Oeste. Atrasos na semeadura podem ampliar o risco climático da “safrinha”.
Pecuária: cortes valorizados, ração mais barata
Bovinos – Após ciclo de abate intenso, a oferta deve cair entre 5% e 6% em 2026. A menor disponibilidade nos EUA até 2027 abre espaço para exportações brasileiras e sustenta preços. Para o consumidor, itens como capa de filé (+13,68%), peito (+12,91%) e cupim (+11,46%) lideraram as altas em 12 meses, segundo o IBGE.
Aves e suínos – Com milho e farelo de soja estabilizados, custos de ração recuaram, impulsionando margens. A avicultura deve crescer 2% em 2026; já a suinocultura projeta aumento de 2% a 3% na oferta e até 4% nas exportações, apoiada em novos mercados como Filipinas e México.
Açúcar e etanol diante de excedente global
O mercado mundial de açúcar caminha para superávit de 2,6 milhões de toneladas em 2025/26, após preços recordes. As cotações em Nova York cederam 32% desde setembro de 2025. No Brasil, as usinas chegam capitalizadas e com moagem prevista entre 600 milhões e 640 milhões de toneladas de cana.
A produção de etanol deve bater recorde, próxima de 36 bilhões de litros, somando cana e milho. Mesmo com a mistura obrigatória na gasolina elevada para 30% desde 1.º de agosto, a oferta excederá a demanda, o que pode derrubar o preço do etanol hidratado em cerca de 10%, indica o Itaú BBA.
Culturas perenes: desafios específicos
Café – Após valores excepcionais em 2025, a safra 2026 tende a crescer com a recuperação das lavouras. O Rabobank projeta preços do arábica entre US$ 3,10 e US$ 3,55 por libra-peso, ainda sustentados por estoques globais apertados.
Laranja – A colheita anterior alcançou 295 milhões de caixas (+28%). A reconstrução de estoques pressiona as cotações do suco, enquanto os EUA devem superar a União Europeia como principal destino, em meio à quebra de safra na Flórida (60 mil t de suco). O greening mantém custos elevados.
Algodão – O Brasil consolida a liderança nas exportações, com área prevista de 2,1 milhões de hectares (+2,5%), o maior patamar em 37 anos. A demanda global enfraquecida e estoques elevados, porém, limitam as margens.
Com crescimento econômico mais tímido — projeções do Boletim Focus indicam PIB de 2,3% em 2025 e 1,8% em 2026 —, a combinação de crédito caro, custos altos e preços de commodities estáveis impõe ao agronegócio uma “era da eficiência” em 2026.
Com informações de Gazeta do Povo