Home / Economia / Indicações de Haddad ao Banco Central elevam temor de ingerência política entre investidores

Indicações de Haddad ao Banco Central elevam temor de ingerência política entre investidores

ocrente 1772057963
Spread the love

Brasília – 25/02/2026. A apresentação dos economistas Tiago Cavalcanti e Guilherme Mello para as duas cadeiras abertas na diretoria do Banco Central (BC) provocou reação imediata no mercado financeiro, que vê possibilidade de maior influência política sobre a autoridade monetária.

Os nomes foram encaminhados pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As vagas estão sem ocupante desde dezembro de 2025.

Perfis contrastantes

Cavalcanti, professor na Universidade de Cambridge, é descrito por analistas como técnico e distante de disputas partidárias. Já Mello, atual secretário de Política Econômica da Fazenda e coautor do programa econômico do PT, é considerado heterodoxo e crítico às taxas de juros elevadas. Ele deverá assumir a Diretoria de Política Monetária, colegiado que integra o Comitê de Política Monetária (Copom) responsável pela definição da Selic.

Reação dos ativos

No dia em que as indicações vieram a público, as taxas de juros futuros negociadas na B3 subiram, reflexo de prêmio de risco maior diante do receio de enfraquecimento da autonomia do BC.

Críticas recorrentes do Planalto

Lula já afirmou em diversas ocasiões que a política monetária deve seguir orientações do governo. Mesmo após nomear Gabriel Galípolo para a presidência do BC em 2024, o PT manteve críticas à independência da autarquia. Em fevereiro último, o partido aprovou resolução em que atribui à atual estratégia de juros parte das dificuldades do plano econômico do Executivo.

Preocupação entre economistas

Para Fabio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, as escolhas sinalizam “enfraquecimento do núcleo técnico” do BC. Cleveland Prates Teixeira, da Microanalysis Consultoria Econômica, vê risco adicional se o novo diretor entender o juro como “causa e não consequência” da inflação.

Histórico de declarações de Guilherme Mello

Em março de 2023, quando a Selic estava em 13,75% ao ano, Mello sugeriu ter havido motivação política no comunicado do Copom. Em 2024, defendia cortes mais agressivos na taxa. A inflação persistente levou o colegiado a elevar a Selic para 15% em meados de 2025, nível mantido até hoje. Após ser indicado, Mello afirmou que suas falas anteriores refletiam os dados disponíveis na época.

Plano do PT e possível mudança de rota

Mello foi um dos coordenadores do Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil, lançado pelo PT em 2020, que propõe ampliar a missão do BC para incluir metas de emprego e redução de desigualdades, além do controle de preços.

Composição do Copom e próximos passos

Se o Senado aprovar as indicações, Lula passará a ter maioria entre os nove diretores e, até o fim do ano, todos os membros terão sido escolhidos por seu governo. Especialistas temem votações divididas, como a de maio de 2024, quando o placar de 5 a 4 expôs divergências internas sobre o rumo da Selic.

Corte de juros em ano eleitoral?

A ata do Copom divulgada em janeiro aponta chance de iniciar um ciclo de redução da taxa já em março. Analistas, contudo, avaliam que o espaço para afrouxar a política monetária depende de ajuste fiscal – desafio maior em ano de eleições, quando a tendência é de expansão de gastos públicos.

A equipe de reportagem procurou Guilherme Mello, mas não recebeu resposta até o fechamento desta edição.

Com informações de Gazeta do Povo