Nesta quinta-feira, 26 de março, caminhoneiros voltam a se reunir em assembleia para decidir se iniciam uma paralisação nacional semelhante à ocorrida em 2018. Analistas apontam que, em um cenário de preços internacionais do petróleo acima de US$ 100 e defasagem de 55 % no diesel vendido no Brasil, o país teria menos espaço para reagir a uma greve prolongada.
Especialistas ouvidos por economistas da XP e pela reportagem destacam que a combinação entre um choque externo — o conflito no Oriente Médio — e um choque interno — a interrupção do transporte rodoviário — produziria efeitos rápidos e severos em diversos setores da economia. Confira os quatro impactos considerados mais prováveis:
1. Falta de combustíveis nas cidades
Bloqueios nas rodovias costumam esvaziar os estoques dos postos em poucos dias. Em 2018, Minas Gerais e Bahia chegaram a registrar 90 % dos pontos de venda sem produto. Aeroportos estratégicos, como o de Brasília, ficaram sem querosene de aviação e cancelaram voos. Com o diesel hoje mais caro e mais escasso, a tendência é que o esgotamento seja ainda mais rápido, avalia Cézar Queiroz, CEO da Queiroz Investimentos e Participações.
2. Desabastecimento de alimentos e produtos básicos
Sem diesel, a malha rodoviária para, e as cadeias de suprimento entram em colapso. Na paralisação de oito anos atrás, perecíveis desapareceram das gôndolas em menos de 72 horas; o leite subiu 8,2 % em uma semana. Em 2026, o risco é maior porque a colheita agrícola já está atrasada e o varejo opera com menor fôlego devido aos juros elevados.
3. Paralisação da produção industrial
Durante a greve de 2018, a produção fabril despencou 10,9 % no mês, pior resultado desde 2008. Linhas de montagem ficaram sem insumos e não conseguiram escoar a produção. Agora, indústrias de bens duráveis e polos instalados no interior de São Paulo e Santa Catarina, fortemente dependentes de transporte rodoviário, podem parar quase imediatamente. Economistas lembram que metade dos segmentos industriais levou seis meses ou mais para se recuperar após o último movimento.
4. Perda do poder de compra da população
Desabastecimento e interrupção da produção pressionam os preços. O Boletim Focus já projeta inflação de 4,17 % para 2026, perto do teto da meta de 4,5 %. Um novo choque de oferta consolidaria a percepção de inflação alta por período prolongado, afetando diretamente o bolso do consumidor.
Apesar do clima de tensão, lideranças caminhoneiras indicaram na semana passada que seguem negociando com o governo federal, que editou medida provisória para atender parte das reivindicações. A decisão final sobre aderir ou não à paralisação deverá ser tomada na assembleia desta quinta-feira.
Com informações de Gazeta do Povo