Brasília – 13 jan. 2026, 21h08. Em apenas cinco anos, o Banco Master passou de instituição de porte médio para protagonista de um escândalo estimado em bilhões de reais. Documentos do Banco Central (BC) descrevem dois esquemas paralelos que sustentaram o avanço do grupo controlado por Daniel Vorcaro desde 2019, enquanto brechas regulatórias, disputas políticas e decisões judiciais controversas dificultaram a detecção da fraude.
Do Máxima ao Master: a trilha do crescimento
Vorcaro assumiu o antigo Banco Máxima em 2019 e rebatizou a instituição de Master em 2021. A partir daí, o banco multiplicou sua base de ativos usando instrumentos lastreados pelo Estado, sobretudo CDBs cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Esse movimento passou praticamente incólume pelos sistemas de supervisão federal.
Como funcionavam os dois núcleos da fraude
1. Venda de carteiras ao BRB: o Master comprava créditos de terceiros e, quase imediatamente, repassava essas carteiras ao Banco de Brasília (BRB). A operação mantinha o fluxo de caixa necessário para ampliar a emissão de CDBs protegidos pelo FGC.
2. Empréstimos fictícios e fundos da Reag: a instituição também liberava créditos simulados para empresas que, na sequência, aplicavam os valores em fundos geridos pela Reag – alvo da Operação Carbono Oculto. Os recursos circulavam por ativos pouco líquidos, avaliados acima do preço de mercado, e retornavam ao sistema financeiro de origem, fechando o ciclo fraudulento.
Órgãos de controle em desalinho
Para especialistas como Cleveland Prates Teixeira, da Microanalysis Consultoria, a fragmentação entre o Banco Central (responsável por supervisionar bancos) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM, que vigia produtos de investimento) criou espaços para a fraude avançar. A CVM, afirma ele, opera “com poucos servidores, baixo orçamento e forte influência política”.
Indicação contestada para a CVM
O debate ganhou força em 7 de janeiro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o servidor Otto Lobo para comandar a CVM. Lobo é questionado por ter pedido vistas e proferido votos considerados favoráveis ao Banco Master em processos anteriores. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) solicitou que o Senado fosse formalmente alertado sobre possíveis conflitos de interesse antes da sabatina.
Decisões sob sigilo no STF
Após a liquidação extrajudicial do banco, decretada pelo BC em novembro, o caso subiu ao Supremo Tribunal Federal e passou a tramitar em sigilo. O ministro Dias Toffoli chegou a marcar acareação entre investigados antes mesmo de todos prestarem depoimento, recuando após críticas de juristas.
TCU x Banco Central
Paralelamente, o TCU abriu inspeção sobre a atuação do BC. O relator Jhonatan de Jesus chegou a aventar a reversão da liquidação e deu 72 horas para explicações. Depois de forte reação de mercado e de um recurso do BC, o presidente do TCU, Vital do Rêgo, e o presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, firmaram acordo em 12 de janeiro limitando o acesso dos auditores a documentos administrativos, sem quebra de sigilo bancário.
Previdência estadual exposta
Ao menos 18 regimes próprios de previdência (RPPS) de estados e municípios aplicaram em Letras Financeiras do Master. Destaque para Rioprevidência (R$ 970 milhões), Amprev/AP (R$ 400 milhões) e Iprev Maceió (R$ 97 milhões), elevando o risco de perda de recursos públicos.
Suspeitas de conluio e pressão por CPI
A constitucionalista Vera Chemim vê possível articulação entre Poderes diante da tentativa de limitar investigações e manter dados em sigilo, incluindo ligações do presidente do BC com o ministro Alexandre de Moraes, que não tiveram conteúdo divulgado. Já o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) informou ter alcançado as 171 assinaturas necessárias para instalar uma CPI do Banco Master. A decisão final cabe ao presidente da Câmara, Hugo Motta, após o recesso parlamentar.
Ainda sem estimativa oficial do total do prejuízo, o caso segue como um dos maiores episódios de fraude bancária já registrados no país, envolvendo disputa institucional, possível influência política e elevado volume de recursos públicos.
Com informações de Gazeta do Povo