Brasília — O advogado Enrique de Abreu Lewandowski, filho do então ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, representou a Capital Consig Sociedade de Crédito Direto S.A. no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em dezembro de 2025. A empresa é investigada por fraudes em empréstimos consignados a servidores de Mato Grosso e por fornecer créditos que integraram carteiras do Banco Master.
O pedido, registrado como tutela cautelar antecedente, buscava suspender decisão do governo de Mato Grosso que retirou a Capital Consig do cadastro para oferecer consignados e bloqueou descontos em folha de contratos já firmados. O relator, ministro Francisco Falcão, negou a liminar por entender que o STJ ainda não tinha competência para analisar o caso naquela fase.
Atuação coincide com mandato do pai
Na data do protocolo, Ricardo Lewandowski exercia o cargo de ministro da Justiça no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT); ele deixou a pasta em 8 de janeiro de 2026. A simultaneidade não configura irregularidade, mas ocorre enquanto autoridades apuram pagamentos de cerca de R$ 5 milhões do Banco Master ao escritório ligado à família Lewandowski e investigam operações de crédito consignado sob suspeita.
Procurado, o ex-ministro negou “qualquer conhecimento sobre eventual recurso no STJ” e afirmou ter se afastado da advocacia, com suspensão de registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), conforme a legislação. A reportagem buscou a assessoria de Enrique Lewandowski, sem retorno até o fechamento deste texto.
Fraudes em cadeia de consignados
A suspensão dos consignados pela gestão mato-grossense foi motivada por denúncias de que a Capital Consig repassava valores menores que os registrados nas cédulas de crédito bancário (CCBs). Relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), divulgado em agosto de 2025, apontou inconsistências em grande parte dos 90.149 contratos analisados; apenas 27.331 não apresentaram irregularidades.
Segundo relato do Banco Central (BC) ao Ministério Público Federal, os créditos sob suspeita percorreram uma cadeia: originados na Capital Consig, foram cedidos à Cartos Sociedade de Crédito Direto, repassados à Tirreno Consultoria e vendidos ao Banco Master por cerca de R$ 6,7 bilhões entre janeiro e junho de 2025. Entre janeiro e maio do mesmo ano, o Master revendeu essas carteiras ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12,2 bilhões, com prêmio estimado em R$ 5,5 bilhões.
Testes do BC identificaram ausência de fluxo financeiro compatível com os contratos e falhas de documentação. Em amostra com 30 clientes, nenhuma transferência de recursos correspondente aos empréstimos foi localizada. O órgão apontou ainda campos de conta em branco, depósitos feitos até 180 dias após emissão das CCBs e valores creditados diferentes dos registrados.
Repercussão e posicionamentos
Ao BRB, o Banco Central recomendou garantias adicionais de R$ 16,1 bilhões diante dos riscos. O banco brasiliense informou que tenta revender os ativos originados no Master e mantém auditoria independente para avaliar eventuais perdas.
A Cartos negou envolvimento nas irregularidades, afirmando que jamais operou com o Banco Master nem manteve relação contratual com a Tirreno. Master, Capital Consig e Tirreno não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
Na esfera política, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), disse em 28 de janeiro que o presidente Lula foi informado, em janeiro de 2024, sobre contratos privados mantidos por Ricardo Lewandowski antes de sua nomeação para o ministério.
Com informações de Gazeta do Povo