Uma operação envolvendo certificados de créditos de carbono na Amazônia foi usada para elevar artificialmente o patrimônio de fundos de investimento administrados pela Reag e associados ao Banco Master, segundo reportagem publicada nesta terça-feira (20). Documentos indicam que a manobra movimentou valores bilionários sem lastro real e contou com a participação de parentes do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Master.
De acordo com a apuração, familiares de Vorcaro integraram desde o início o plano de explorar créditos de carbono em área considerada terra pública da União no município de Apuí (AM). A estrutura envolveria a Alliance Participações, empresa presidida por Henrique Moura Vorcaro e que tem como diretora Natália Bueno Vorcaro Zettel, irmã do banqueiro.
Reavaliação bilionária de fundos
Dois fundos sob gestão da Reag tiveram o patrimônio reavaliado após empresas investidas — Global Carbon e Golden Green — registrarem aumento conjunto superior a R$ 45,5 bilhões, sustentado por estimativas de 168,872 milhões de unidades de carbono geradas na área da Fazenda Floresta Amazônica. Não houve certificação reconhecida nem referência de preço no mercado.
Mesmo sem vender um único crédito, a Golden Green passou a ser avaliada em R$ 14,5 bilhões, enquanto a Global Carbon atingiu R$ 31 bilhões. Os valores inflados permitiram ampliar a captação via CDBs e empréstimos, segundo a reportagem.
Contrato em terra disputada
Em agosto de 2022, a Alliance assinou contrato de opção de compra e venda com o fazendeiro Marco Antônio de Melo, apresentado como proprietário da área, e com o intermediário José Antônio Ramos Bittencourt. Pelo acordo, 80 % dos créditos ficariam com a Alliance e 20 % com Bittencourt.
Como pagamento, Bittencourt recebeu cotas de 2,5 % no fundo New Jade 2 e 7,5 % no Biguaçu, além de tokens de carbono. O contrato também previa remuneração ao fazendeiro em cotas e tokens, mas sem detalhar critérios.
A área em questão enfrenta disputas fundiárias e está listada como terra da União destinada à reforma agrária, o que impede negociação privada. Auditorias teriam validado os ativos baseadas apenas em informações das próprias empresas.
Posicionamentos
O Banco Master declarou que não participa de projetos vinculados a créditos de carbono. Em nota conjunta, Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel afirmaram atuar de boa-fé e negaram envolvimento em irregularidades. A defesa de Daniel Vorcaro disse que a administração dos fundos é responsabilidade exclusiva das gestoras.
José Bittencourt afirmou que o projeto foi interrompido na fase inicial após consultoria apontar problemas fundiários e que existe um Termo de Ajustamento de Conduta tramitando no Incra. A Reag e o fazendeiro Marco Antônio de Melo não se pronunciaram.
O Banco Central liquidou a Reag na semana passada sob suspeita de gerenciar aplicações abastecidas por recursos do PCC. As investigações sobre o esquema de créditos de carbono e o eventual impacto nos fundos do Banco Master seguem em andamento.
Com informações de Gazeta do Povo