A entrada em vigor, em 6 de julho, do adicional tarifário de 40% aplicado pelos Estados Unidos às importações brasileiras levou companhias de diversos setores a redesenhar rotas de exportação, rever plantas industriais e negociar com clientes para preservar receitas. O pacote, anunciado pelo presidente Donald Trump no início do mês passado e parcialmente atenuado por uma lista com mais de 600 exceções, elevou a tarifa média sobre produtos do Brasil de 1,3% em 2024 para 30,9% em 2025.
Segundo cálculos da XP, o impacto direto sobre a economia brasileira deve reduzir o crescimento do PIB em 0,15 ponto percentual neste ano. Estudo do Núcleo de Estudos em Modelagem Econômica e Ambiental Aplicada (Nema/UFMG) projeta perda entre 0,1 e 0,26 ponto, a depender de eventuais retaliações de outros países.
Perdas concentradas no Sul e Sudeste
A análise regional do Nema indica efeitos mais fortes nos estados do Sudeste e do Sul. As maiores quedas de receita projetadas são:
São Paulo: R$ 11,3 bilhões
Rio Grande do Sul: R$ 4 bilhões
Rio de Janeiro: R$ 3,2 bilhões
Minas Gerais: R$ 1,6 bilhão
Bahia: R$ 1,4 bilhão
Paraná: R$ 1 bilhão
Agronegócio redireciona embarques
No campo, as exportações de carne bovina passaram a enfrentar tarifa total de 74%, virtualmente inviabilizando as vendas aos EUA. Grandes frigoríficos recorrem à diversificação geográfica:
JBS – usa sua plataforma global para remanejar volumes do Brasil para outros mercados.
Marfrig – as remessas brasileiras respondiam por 2% da receita na América do Sul; a companhia reforça operações no Uruguai, Argentina, Filipinas e Indonésia.
Minerva Foods – desloca produção para plantas na Argentina, Uruguai e Paraguai, já habilitadas a exportar para os EUA.
O segmento sucroalcooleiro também busca saídas. A Jalles Machado calcula impacto de R$ 20 a 25 milhões no fluxo de caixa com a perda de competitividade do açúcar orgânico e avalia vender parte do produto no mercado interno como açúcar cristal. A São Martinho deve enviar mais açúcar a outros países, mantendo o etanol como “válvula de escape” doméstica. Para a Cosan, a dependência reduzida dos EUA evita efeitos materiais relevantes.
Papel e celulose negociam custos
Na cadeia florestal, a Suzano ficou livre da sobretaxa de 50% sobre celulose, mas viu alguns produtos de papel entrarem na lista. A companhia formou estoques nos EUA, negocia para que clientes paguem a tarifa de 10% sobre celulose e pretende redirecionar embarques de papel — hoje 20% vão para o mercado norte-americano. A Klabin, com presença ampla na América Latina, reporta maior resiliência.

Imagem: Cláudio Neves via gazetadopovo.com.br
Aeroespacial mantém isenção
A Embraer foi incluída nas exceções que preservam aeronaves, peças e motores. O acréscimo de custos, estimado em menos de 10% graças ao elevado conteúdo de componentes norte-americanos, deve ficar em torno de US$ 65 milhões em 2025. A fabricante segue dialogando com Brasília e Washington para restaurar a tarifa zero que vigorou por mais de quatro décadas.
Indústria desloca produção
Outros setores também adotam ajustes:
Tupy – planeja transferir parte das linhas brasileiras para o México, aproveitando a isenção prevista pelo acordo USMCA.
WEG – utiliza fábricas na Índia e no México para abastecer os EUA e destina a produção brasileira ao consumo desses países.
Gerdau – sem impacto direto em suas usinas norte-americanas, mas com clientes brasileiros afetados, cortou investimentos no país e desligou cerca de 1.500 empregados.
Mesmo com a inclusão de itens estratégicos como petróleo, suco de laranja e aeronaves, o governo dos EUA manteve a segunda posição como destino das exportações brasileiras. Entretanto, o “tarifaço” alterou rapidamente o humor dos investidores e obrigou empresas a revisarem cadeias de suprimento para sustentar a presença no maior mercado para a indústria de transformação nacional.
Com informações de Gazeta do Povo